Sobre doença de Crohn e colite ulcerativa, informe se é verdadeiro (V) ou falso (F) o que se afirma a seguir. ( ) O tabagismo parece conferir um efeito protetor na colite ulcerativa. ( ) A lesão mais característica da colite ulcerativa é o abscesso das criptas de Lieberkühn. ( ) Uma característica histológica importante da doença de Crohn é o granuloma não caseoso, um agregado de histiócitos epitelioides circundados por neutrófilos e células gigantes. ( ) O paciente com doença de Crohn pode desenvolver fístulas entre o intestino e qualquer outro órgão intra‐abdominal, a maioria delas envolve o intestino delgado.
Pegadinha central: tabagismo piora Crohn, mas tem associação epidemiológica inversa com colite ulcerativa. Isso não transforma cigarro em tratamento.
Colite ulcerativa: inflamação mucosa contínua desde o reto; criptite e abscessos crípticos indicam atividade, enquanto distorção arquitetural e plasmocitose basal ajudam a demonstrar cronicidade.
Crohn: inflamação transmural explica estenose, abscesso e fístula. Granuloma não caseoso, quando presente e afastado de lesão de cripta, é altamente sugestivo, mas sua ausência não exclui a doença.
Em questões comparando as duas DII, a banca costuma combinar três eixos de alto rendimento: tabagismo, histologia e complicações transmurais.
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Contexto
Doença de Crohn e colite ulcerativa são doenças inflamatórias intestinais, mas diferem no padrão de acometimento e na profundidade da inflamação. A colite ulcerativa compromete exclusivamente o cólon, tipicamente de forma contínua a partir do reto, com inflamação predominante da mucosa. A doença de Crohn pode atingir qualquer segmento do trato gastrointestinal, apresenta áreas salteadas e inflamação transmural, característica que explica complicações penetrantes como abscessos e fístulas.
O tabagismo tem relação paradoxal com as doenças inflamatórias intestinais: associa-se epidemiologicamente a menor risco de colite ulcerativa, enquanto aumenta o risco e piora a evolução da doença de Crohn. Isso não significa que fumar seja recomendado como prevenção ou tratamento da colite ulcerativa, pois os danos globais do tabaco superam qualquer associação protetora observada.
Na colite ulcerativa, o abscesso críptico corresponde ao acúmulo de neutrófilos na luz das criptas de Lieberkühn e é uma manifestação clássica de atividade histológica. O ECCO Position Paper de 2023 define abscesso críptico pela presença de neutrófilos no lúmen da cripta. Ele não é exclusivo da colite ulcerativa, portanto não deve ser confundido com achado patognomônico; a combinação com inflamação difusa, alterações arquiteturais crônicas e distribuição contínua é mais discriminativa.
Na doença de Crohn, o achado histológico de maior especificidade é o granuloma epitelioide não caseoso, desde que esteja afastado de lesão ou ruptura de cripta e que outras causas granulomatosas tenham sido excluídas. O ECCO Position Paper de 2023 descreve o granuloma como agregado de histiócitos epitelioides, podendo conter células gigantes multinucleadas. A expressão da questão dizendo que esses histiócitos são “circundados por neutrófilos” é imprecisa à luz da nomenclatura histológica atual: neutrófilos não são componente obrigatório do granuloma típico de Crohn. Ainda assim, a banca considerou a assertiva verdadeira pelo seu núcleo diagnóstico, isto é, a presença de granuloma não caseoso na doença de Crohn.
A inflamação transmural do Crohn pode atravessar a parede intestinal e criar trajetos fistulosos. Podem ocorrer fístulas enteroentéricas, enterocolônicas, enterovesicais, enterovaginais, enterocutâneas e perianais. Entre as fístulas intra-abdominais, as enteroentéricas são as mais frequentes, o que sustenta a afirmação de que muitas envolvem o intestino delgado.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. A sequência V-V-F-V erra ao classificar a terceira assertiva como falsa. Para a lógica da questão, o granuloma não caseoso é uma característica histológica importante do Crohn. A ressalva moderna é apenas morfológica: neutrófilos não são necessários para definir esse granuloma.
B) Incorreta. A sequência F-V-F-V erra a primeira e a terceira assertivas. O tabagismo apresenta associação epidemiológica protetora com colite ulcerativa, enquanto o granuloma epitelioide não caseoso é um achado clássico e relativamente específico do Crohn quando não está associado a ruptura de cripta.
C) Correta (gabarito). A banca considera verdadeiras as quatro afirmações: associação protetora do tabagismo com colite ulcerativa; abscesso das criptas como achado histológico clássico da colite ulcerativa; granuloma não caseoso como característica importante do Crohn; e formação de fístulas, frequentemente envolvendo segmentos de intestino delgado, em razão da inflamação transmural. A única ressalva contemporânea é que a descrição do granuloma como circundado por neutrófilos não corresponde à definição histológica atual.
D) Incorreta. A sequência V-V-F-F erra a terceira e a quarta assertivas. O granuloma não caseoso favorece Crohn, e o caráter transmural da doença permite fístulas entre o intestino e outras vísceras ou a pele, sendo as enteroentéricas particularmente frequentes entre as fístulas internas.
E) Incorreta. A sequência F-V-V-F reconhece corretamente o abscesso críptico e o granuloma, mas erra ao negar a associação protetora do tabagismo com colite ulcerativa e ao negar a propensão do Crohn à formação de fístulas.