Um médico, trabalhando em uma unidade de pronto atendimento, atende um paciente de 70 anos com queixa de febre de início há 4 dias, acompanhada de tosse produtiva e astenia. O paciente é diabético e hipertenso, encontra-se consciente e orientado, porém, no momento, está com a visão prejudicada, devido à cirurgia recente de correção de catarata. Ele não tem tomado as medicações de uso contínuo por não estar conseguindo identificá-las. Seu filho, que mora há 450 Km de distância, chegará em 2 dias para poder acompanhá-lo. Ao exame físico, apresenta frequência respiratória de 24 irpm, pressão arterial de 100x64 mmHg, exame laboratorial:
A pegadinha central é achar que CURB-65 baixo significa alta obrigatória. O escore auxilia a decisão, mas não substitui a avaliação de comorbidades, capacidade de tomar medicações, suporte domiciliar e segurança do seguimento.
Para esta questão, use o corte da SBPT 2018: ureia > 50 mg/dL. Com ureia de 45 mg/dL, somente a idade pontua e o CURB-65 é 1.
Existe diferença entre referências: o NICE 2025 usa > 7 mmol/L, aproximadamente 42 mg/dL de ureia. Nesse enquadramento, 45 mg/dL pontuaria e o escore seria 2.
Em provas, quando o escore e o contexto apontam em direções diferentes, procure sinais de que a banca está testando segurança do tratamento ambulatorial, e não apenas soma de pontos.
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Contexto
O CURB-65 é um escore prognóstico usado na pneumonia adquirida na comunidade para estimar risco de mortalidade e auxiliar na definição do local de tratamento. Cada componente vale 1 ponto: confusão mental nova; alteração da ureia; frequência respiratória de 30 irpm ou mais; pressão arterial sistólica menor que 90 mmHg ou diastólica de 60 mmHg ou menos; e idade de 65 anos ou mais.
Pelas Recomendações para o Manejo da Pneumonia Adquirida na Comunidade da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia de 2018, o corte de ureia apresentado para o CURB-65 é > 50 mg/dL. Assim, nesta questão, a ureia de 45 mg/dL não pontua e o paciente soma 1 ponto, exclusivamente pela idade. Isso explica por que o gabarito afirma CURB-65 igual a 1.
Há uma divergência importante entre referências. A diretriz NICE NG250 de 2025 mantém como componente do CURB-65 ureia acima de 7 mmol/L, valor que corresponde a aproximadamente 42 mg/dL de ureia. Por esse critério, uma ureia de 45 mg/dL pontuaria e o escore seria 2. Portanto, a questão segue a referência brasileira que utiliza o corte de 50 mg/dL. Em prova, deve-se reconhecer essa diferença de referência sem alterar o gabarito proposto.
Mais importante, o CURB-65 não determina sozinho o local de tratamento. A própria estratificação moderna deve ser combinada ao julgamento clínico e à segurança do cuidado fora do hospital. Neste caso, o paciente é idoso, diabético, está com limitação visual após cirurgia, deixou de tomar as próprias medicações porque não consegue identificá-las e ficará sem suporte familiar por mais 2 dias. Mesmo com baixa pontuação pelo critério adotado pela banca, o tratamento domiciliar não oferece segurança adequada, justificando internação ou outra modalidade de cuidado supervisionado disponível.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. O paciente não possui 4 pontos. Não há confusão, frequência respiratória de 30 irpm ou mais nem hipotensão pelos critérios do escore. Pela referência brasileira de 2018, a ureia de 45 mg/dL também não pontua.
B) Incorreta. A contagem de 1 ponto é compatível com o corte de ureia adotado pela referência brasileira usada pela questão, mas a conclusão é inadequada. Baixo CURB-65 não obriga tratamento ambulatorial. A incapacidade temporária de manejar as próprias medicações, associada às comorbidades e à ausência de suporte domiciliar imediato, torna a alta insegura.
C) Correta (gabarito). Pela referência brasileira utilizada pela banca, o paciente tem apenas 1 ponto, pela idade. Mesmo assim, a internação é a melhor conduta entre as alternativas porque o local de tratamento deve considerar, além do prognóstico pelo CURB-65, comorbidades, capacidade de autocuidado, adesão ao tratamento e suporte social. Neste caso, esses fatores tornam o manejo domiciliar inadequado.
D) Incorreta. O valor de 2 pontos seria obtido se fosse aplicado o corte de ureia acima de 7 mmol/L, aproximadamente 42 mg/dL, utilizado em referências como o NICE 2025. Contudo, essa não é a referência adotada pela questão. Além disso, mesmo que se considerassem 2 pontos, o contexto clínico e social continuaria desfavorável ao simples tratamento ambulatorial.
E) Incorreta. Não há 3 critérios presentes. O paciente não apresenta confusão, taquipneia pelo ponto de corte do escore nem hipotensão. Mesmo em uma referência que pontuasse a ureia de 45 mg/dL, o total seria 2, pela ureia e pela idade.