Sepse e choque séptico

Acesso diretoComentada pelo MedBoard
Questão 73
HCPA · 2019

Considere os cenários clínicos abaixo.

I - Paciente de 70 anos veio à Emergência por distensão abdominal, náuseas e vômitos, quadro com 3 dias de evolução, tendo como histórico retossigmoidectomia por diverticulite há 10 anos. Encontrava-se lúcido e orientado e referiu desconforto abdominal. O exame físico revelou cicatriz abdominal mediana, ausência de ruídos hidroaéreos e hipertimpanismo abdominal. A avaliação dos sinais vitais indicou temperatura axilar de 37,8º C, frequência cardíaca de 110 bpm, frequência respiratória de 20 mpm, oximetria de pulso de 95% com oxigênio suplementar de 2 l/min, pressão arterial de 130/70 mmHg sem uso de fármacos vasoativos e tempo de enchimento capilar de 3 segundos.

II - Paciente de 29 anos, com história de transplante renal há 1 ano, foi trazida à Emergência por dor pélvica, disúria e febre, quadro com 2 dias de evolução. Apresentava agitação psicomotora, apesar de estar lúcida e orientada. O exame físico foi inexpressivo, a não ser por cicatriz em hipogástrio e fístula arteriovenosa sem frêmito. Evoluiu com disfunção ventilatória e hipotensão, havendo necessidade de instalação de ventilação mecânica invasiva e ressuscitação volêmica. A avaliação dos sinais vitais após o manejo inicial indicou temperatura axilar de 37º C, frequência cardíaca de 120 bpm, frequência respiratória de 18 mpm, oximetria de pulso de 95% com FiO2 de 0,35, pressão arterial de 100/70 mmHg sem uso de fármacos vasoativos e tempo de enchimento capilar de 3 segundos.

III - Paciente de 18 anos veio à Emergência por odinofagia, febre e calafrios, quadro com 24 horas de evolução. Previamente hígida, encontrava-se lúcida e orientada. O exame físico revelou apenas adenomegalias cervicais. A avaliação dos sinais vitais indicou temperatura axilar de 38,7º C, frequência cardíaca de 130 bpm, frequência respiratória de 22 mpm, oximetria de pulso de 99% em ar ambiente, pressão arterial de 100/60 mmHg sem uso de fármacos vasoativos e tempo de enchimento capilar de 2 segundos.

Quais deles preenchem os critérios de sepse segundo as definições atuais dos Surviving Sepsis Guidelines (2017)?
Explicação oficial do MedBoard

Contexto

As definições Sepsis-3, adotadas pelas diretrizes contemporâneas do Surviving Sepsis Campaign, definem sepse como infecção suspeita ou confirmada associada a disfunção orgânica aguda ameaçadora à vida. Na operacionalização clássica, a disfunção é representada por aumento de pelo menos 2 pontos no SOFA em relação ao basal. SIRS deixou de ser critério definidor de sepse.

No cenário I, o quadro principal é obstrução intestinal ou íleo em paciente previamente operado, sem foco infeccioso claramente estabelecido e sem disfunção orgânica descrita que permita classificar sepse.

No cenário II, há infecção urinária provável em paciente transplantada associada a deterioração aguda importante, com insuficiência respiratória que exigiu ventilação mecânica e instabilidade hemodinâmica necessitando ressuscitação volêmica. O enunciado não fornece todos os componentes laboratoriais para calcular formalmente o SOFA, mas descreve disfunção orgânica aguda em contexto infeccioso, que é o núcleo da definição de sepse.

No cenário III, há provável infecção de orofaringe com febre, taquicardia e taquipneia, mas sem disfunção orgânica demonstrada. Curiosamente, a paciente pontua em qSOFA pela frequência respiratória de 22 e pressão sistólica de 100 mmHg. Isso reforça a pegadinha: qSOFA não diagnostica sepse.

Alternativa por alternativa

A) Incorreta. O cenário I não apresenta combinação convincente de infecção e disfunção orgânica aguda.

B) Correta (gabarito). Apenas o cenário II apresenta infecção associada a disfunção orgânica aguda clinicamente evidente.

C) Incorreta. O cenário III tem resposta inflamatória sistêmica e até qSOFA positivo pelos dados fornecidos, mas não há disfunção orgânica demonstrada que feche sepse.

D) Incorreta. I e III não atendem ao núcleo atual da definição de sepse.

E) Incorreta. Febre, taquicardia, taquipneia ou hipotensão limítrofe não tornam todo paciente séptico; é necessário vincular infecção a disfunção orgânica aguda.

Bizu MedBoard
  • Pegadinha central: qSOFA e SIRS não são definição de sepse.

  • Sepse é infecção mais disfunção orgânica aguda, tradicionalmente operacionalizada por aumento de SOFA maior ou igual a 2.

  • Um paciente pode ter qSOFA 2 e ainda não ter sepse demonstrada; o escore serve para alerta de risco, não para substituir avaliação de disfunção orgânica.

  • Choque séptico exige vasopressor e lactato maior que 2 mmol/l após volume adequado, não apenas uma pressão arterial baixa isolada.

Estudar tudo por igual é o que faz o seu tempo não render.

A prova que você vai prestar tem cara própria. Tem tema que cai todo ano e tema que nunca apareceu, e decidir isso no improviso custa as semanas que você não tem.

O MedBoard começa pelo outro lado. Ele pesa cada tema pela banca que você vai prestar, monta o cronograma a partir disso e guarda o que você errou para devolver na hora certa.

Criar conta grátis
Bia
Essa você viu resolvida 😊 Mas “Sepse e choque séptico” não cai uma vez só: tem muitas outras questões desse mesmo tema esperando você aqui, todas comentadas assim.
Treinar este tema →