Paciente de 41 anos foi submetida a aspiração manual intrauterina (AMIU) por aborto incompleto de uma gestação de 8 semanas, tendo sido identificado, previamente, um embrião. Os exames pré-operatórios do dia indicaram hemoglobina de 10,6 g/dl, leucograma de 13.390 leucócitos/ml, sem desvio para a esquerda. Durante o procedimento, a única anormalidade observada foi o útero com consistência anormalmente amolecida. Na sala de recuperação anestésica, 15 minutos após o procedimento, a paciente estava com pressão arterial de 79/46 mmHg, frequência respiratória de 16 mpm e dor abdominal 7 em 10 na Escala Análogo-visual. Foi administrado analgésico e realizada reposição de volume com 1 litro de soro fisiológico. Uma hora depois, a pressão arterial era de 86/51 mmHg, e o índice de Glasgow, de 13. Ao toque vaginal, o sangramento era escasso, e a paciente apresentava dor à mobilização uterina.
Após abortamento, choque + dor uterina + sinais sistêmicos = trate infecção grave enquanto investiga outras causas de instabilidade.
Febre ausente não exclui sepse.
Paciente instável não fica em observação eletiva nem espera exame de imagem antes das medidas de suporte e antibiótico.
A prova que você vai prestar tem cara própria. Tem tema que cai todo ano e tema que nunca apareceu, e decidir isso no improviso custa as semanas que você não tem.
O MedBoard começa pelo outro lado. Ele pesa cada tema pela banca que você vai prestar, monta o cronograma a partir disso e guarda o que você errou para devolver na hora certa.
Criar conta grátis
Contexto
Após esvaziamento uterino, hipotensão persistente apesar de reposição volêmica, rebaixamento do nível de consciência e dor pélvica importante exigem tratar a paciente como instável. O gabarito interpreta a combinação de útero anormalmente amolecido, dor à mobilização uterina e deterioração sistêmica como abortamento infectado com sepse. Febre pode estar ausente, especialmente em apresentações graves ou muito precoces, e leucocitose isolada é pouco específica na gestação; o elemento que muda a gravidade é a repercussão orgânica, aqui representada por choque e Glasgow 13.
Na suspeita de infecção pós-abortamento com instabilidade, o princípio recomendado pela OMS em sua Abortion care guideline, 2ª edição de 2025, é antibioticoterapia intravenosa de amplo espectro, suporte hemodinâmico e controle do foco. Um esquema obstétrico clássico é clindamicina associada a gentamicina, com ampliação conforme gravidade, microbiologia local e resposta. Em paciente hipotensa, não se deve aguardar ultrassonografia eletiva nem limitar a conduta à observação.
Há diagnósticos diferenciais importantes diante de choque após AMIU, como hemorragia oculta por perfuração uterina, reação anestésica ou sangramento intra-abdominal. Na prática, a investigação e o suporte são simultâneos. Entre as alternativas fornecidas, porém, a opção que reconhece a síndrome infecciosa sistêmica e oferece tratamento imediato é a E.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Mola hidatiforme completa classicamente não apresenta embrião identificável, porque decorre de material genético predominantemente paterno sem desenvolvimento embrionário viável. A pesquisa de p57 pode auxiliar na diferenciação anatomopatológica de mola completa, mas não explica o choque e a dor uterina aguda deste caso, nem deve atrasar o tratamento da instabilidade.
B) Incorreta. Gestação heterotópica exige coexistência de gestação intrauterina e ectópica. Não há dado clínico ou ultrassonográfico que a sustente no enunciado, e a alternativa ignora os sinais de infecção uterina e repercussão sistêmica.
C) Incorreta. Nova curetagem não é indicada apenas porque houve hipotensão. O sangramento vaginal é escasso, e não há evidência de retenção de restos como causa dominante. Repetir instrumentação uterina em paciente instável sem definir a etiologia pode agravar complicações.
D) Incorreta. Hipotensão persistente e alteração do sensório são sinais de disfunção orgânica. Essa paciente não é candidata a simples observação por 24 horas aguardando ultrassonografia.
E) Correta (gabarito). O quadro é tratado como abortamento infectado com sepse. Clindamicina e gentamicina intravenosas oferecem cobertura ampla para flora polimicrobiana, e devem ser associadas a suporte hemodinâmico e avaliação imediata da necessidade de controle adicional do foco.