Paciente de 36 anos consultou por fadiga de instalação gradual. Vinha apresentando hipermenorreia nos últimos meses. A revisão de sistemas foi normal, assim como o exame físico completo. Informou ter vários familiares com diagnóstico de talassemia; sua história médica, porém, não revelou qualquer particularidade. O hemograma realizado mostrou hemoglobina de 9,5% e VCM de 74 fl.
Pegadinha central: história familiar de talassemia não vence uma ferritina baixa; ferritina baixa confirma deficiência de ferro.
Ferritina normal não exclui ferropenia se houver inflamação, mas ferritina baixa é altamente específica.
Talassemia maior não estreia aos 36 anos; traço talassêmico é a forma compatível com adulto assintomático.
Ferropenia e traço talassêmico podem coexistir.
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Contexto
O quadro é de anemia microcítica, com hemoglobina de 9,5 g/dl e VCM de 74 fl. Há duas hipóteses fortes: deficiência de ferro pela hipermenorreia e traço talassêmico pela história familiar. O primeiro passo é avaliar estoques de ferro. A ferritina é o marcador isolado mais útil; ferritina baixa tem alta especificidade para deficiência absoluta de ferro. Em estados inflamatórios ela pode ficar falsamente normal ou elevada, mas uma ferritina realmente baixa não é explicada pela talassemia.
Isso não significa que talassemia e ferropenia sejam mutuamente exclusivas. A paciente pode ter deficiência de ferro e também ser portadora de traço talassêmico. Se a microcitose persistir após correção do ferro, ou se houver contagem de hemácias relativamente alta e história familiar forte, eletroforese de hemoglobina e investigação específica passam a ser apropriadas.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). Em uma paciente anêmica e microcítica, ferritina baixa confirma deficiência absoluta de ferro e, neste contexto de hipermenorreia, estabelece anemia ferropriva. Isso não exclui coexistência de traço talassêmico, que pode ser investigado depois se houver suspeita persistente.
B) Incorreta. Talassemia maior se manifesta tipicamente na infância com anemia grave, necessidade transfusional e complicações sistêmicas. Uma mulher de 36 anos previamente sem particularidades não teria talassemia maior silenciosa apenas pela ausência de esplenomegalia.
C) Incorreta. Saturação de transferrina baixa indica disponibilidade reduzida de ferro para eritropoiese e favorece ferropenia. Não confirma talassemia.
D) Incorreta. Talassemias não causam depleção de ferro por si. A ferritina tende a ser normal e pode ser elevada, especialmente em pacientes transfundidos ou com sobrecarga de ferro.