Paciente de 45 anos, com obesidade, foi hospitalizado por infecção por covid-19. Vinha recebendo, desde o dia da internação, dexametasona (6 mg/dia) e oxigênio por cateter nasal (5 l/min). Apresentou glicemias capilares > 200 mg/dl nos dois primeiros dias, tendo sido iniciada administração de insulina em esquema basal e em bolo. Desconhecia o diagnóstico prévio de diabetes melito (DM).
A pegadinha é separar hiperglicemia hospitalar de diabetes prévio. Glicose alta durante infecção grave ou corticoterapia não diz, sozinha, quando o distúrbio começou.
ADA 2026: HbA1c de 6,5% ou mais na admissão sugere diabetes preexistente.
HbA1c abaixo de 6,5% favorece hiperglicemia de estresse, mas não é prova absoluta se houver condições que alterem a sobrevida das hemácias.
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Contexto
Hiperglicemia durante internação pode representar diabetes previamente não reconhecido, hiperglicemia de estresse ou efeito de medicamentos, especialmente glicocorticoides. Neste paciente, covid-19 grave e dexametasona de 6 mg/dia são dois estímulos fortes para aumento agudo da glicose. A hemoglobina glicada é útil porque reflete a exposição glicêmica das semanas e meses anteriores e sofre muito menos influência da hiperglicemia transitória dos primeiros dias de internação.
Os Standards of Care in Diabetes da ADA de 2026 definem hiperglicemia hospitalar como glicose acima de 140 mg/dl e afirmam que HbA1c na admissão de 6,5% ou mais sugere que o diabetes já estava presente antes da hospitalização. Assim, HbA1c abaixo de 6,5% em paciente sem diagnóstico prévio torna hiperglicemia crônica em faixa diagnóstica menos provável e favorece hiperglicemia de estresse ou induzida por glicocorticoide.
Há uma nuance importante em relação ao enunciado da alternativa C: pelas recomendações atuais, HbA1c abaixo de 6,5% não prova de maneira absoluta que a hiperglicemia seja de estresse. A HbA1c pode ser falsamente baixa em situações como hemólise, sangramento recente, transfusão ou redução da sobrevida das hemácias. O gabarito é mantido porque, dentro da lógica da questão e na ausência dessas interferências, é o dado que melhor diferencia hiperglicemia aguda de diabetes crônico prévio.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Duas glicemias capilares ao acaso acima de 200 mg/dl durante doença aguda e corticoterapia demonstram hiperglicemia, mas não confirmam que o paciente já tinha diabetes antes da internação. O diagnóstico clássico por glicemia casual exige glicose plasmática de 200 mg/dl ou mais associada a sintomas clássicos de hiperglicemia ou crise hiperglicêmica, ou confirmação por testes diagnósticos apropriados.
B) Incorreta. Duas glicemias de jejum acima de 126 mg/dl podem preencher critério glicêmico para diabetes se obtidas e confirmadas adequadamente, mas, durante internação aguda e uso de dexametasona, não demonstram que a doença já existia antes da hospitalização. A afirmação erra ao transformar hiperglicemia hospitalar em prova de diabetes prévio.
C) Correta (gabarito). HbA1c abaixo de 6,5% torna hiperglicemia crônica prévia em faixa diagnóstica menos provável e, no contexto de doença aguda mais glicocorticoide, sustenta o diagnóstico de hiperglicemia de estresse ou induzida por esteroide. Pela ADA 2026, o termo mais preciso é que esse resultado favorece, e não confirma de modo absoluto, a natureza transitória.
D) Incorreta. É possível obter informação útil sobre a cronologia da hiperglicemia durante a internação. A HbA1c é justamente o principal exame para estimar se a elevação da glicose precedia o evento agudo, desde que não haja condição que invalide sua interpretação.