Gestante com diabetes gestacional e pré-eclâmpsia, em uso de insulina e metildopa, deu à luz recém-nascido pré-termo (36 semanas de idade gestacional e peso ao nascimento de 2.580 g) por parto cesáreo. A parturiente encontrava-se em tratamento para infecção urinária com nitrofurantoína no momento do parto. No alojamento conjunto, o neonato, com 12 horas de vida, apresentou frequência respiratória de 72 mpm, sem disfunção. Os exames laboratoriais realizados indicaram hemoglobina de 17 g/dl, hematócrito de 51%, leucócitos de 3.500/mm3 (8% de bastões, 70% de segmentados e 22% de linfócitos) e proteína C reativa de 5 mg/l.
Pegadinha central: leucopenia neonatal não significa automaticamente sepse; em filho de mãe com pré-eclâmpsia, lembre da supressão granulocítica transitória.
Pré-eclâmpsia: pense em insuficiência placentária, prematuridade, restrição de crescimento e alteração da série branca.
Diabetes materno: a associação hematológica clássica é policitemia, não leucopenia.
PCR isolada, normal ou discretamente alterada, não exclui nem confirma sepse neonatal.
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Contexto
A associação que a questão explora é entre pré-eclâmpsia materna e redução da contagem leucocitária, especialmente da linhagem neutrofílica, no recém-nascido. A doença hipertensiva placentária pode causar insuficiência uteroplacentária e alterar a hematopoese fetal, com menor produção de granulócitos. O achado costuma aparecer precocemente e, em muitos neonatos clinicamente estáveis, é transitório.
O leucograma mostra 3.500 leucócitos/mm3, portanto há leucopenia. Isso não autoriza concluir que exista sepse apenas pelo hemograma. Nenhum marcador isolado, inclusive proteína C reativa, confirma ou exclui infecção neonatal; a interpretação depende de fatores de risco maternos, exame do recém-nascido, evolução clínica e, quando indicado, investigação microbiológica. Nesta questão, entretanto, a pergunta é a etiologia mais provável da leucopenia, e a associação clássica entre pré-eclâmpsia e supressão granulocítica é o dado discriminador.
A taquipneia com 12 horas de vida merece avaliação própria, sobretudo em um prematuro tardio nascido por cesariana e filho de mãe diabética, mas não muda o mecanismo hematológico cobrado. O erro comum é transformar qualquer leucopenia neonatal em sepse sem integrar o contexto obstétrico.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. A prematuridade modifica referências hematológicas e aumenta vulnerabilidade clínica, mas, em um RN de 36 semanas, não é a associação etiológica mais característica para a leucopenia apresentada. O antecedente de pré-eclâmpsia é muito mais específico.
B) Incorreta. Infecção urinária materna pode ser relevante para avaliação de risco infeccioso dependendo do agente e das condições periparto, mas não há relação automática entre bacteriúria/ITU materna em tratamento e leucopenia neonatal. A presença de leucopenia isolada não substitui critérios clínicos de sepse.
C) Incorreta. O diabetes gestacional se relaciona principalmente ao hiperinsulinismo fetal e suas consequências, como macrossomia e hipoglicemia; policitemia também é associação clássica. Leucopenia não é a complicação hematológica típica que identifica o filho de mãe diabética.
D) Correta (gabarito). A pré-eclâmpsia é causa reconhecida de leucopenia/neutropenia neonatal, atribuída principalmente à redução da granulopoese fetal no contexto de disfunção placentária. É o antecedente materno que melhor explica o achado laboratorial.