Paciente feminina, de 64 anos, com diagnóstico de transtorno de humor bipolar de longa data, veio à consulta por quadro de movimentos coreiformes e distônicos, envolvendo principalmente a face e a língua. Atualmente faz uso de olanzapina (10 mg/dia).
Pegadinha central: retirar o antipsicótico abruptamente pode piorar a discinesia em vez de fazê-la desaparecer.
Orobucolinguais repetitivos em quem usa bloqueador dopaminérgico cronicamente são a apresentação mais clássica.
Inibidores de VMAT2 são a principal terapia específica baseada em evidência para quadros clinicamente relevantes.
Antipsicótico atípico também pode causar discinesia tardia.
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Contexto
Discinesia tardia é uma síndrome hipercinética associada à exposição prolongada a fármacos bloqueadores de receptores dopaminérgicos, especialmente antipsicóticos. O padrão clássico envolve movimentos involuntários orobucolinguais, como mastigação, protrusão da língua, caretas e movimentos coreiformes, podendo coexistir distonia e acometimento de tronco e membros.
O risco aumenta com idade, sexo feminino, exposição cumulativa, transtornos do humor, diabetes e uso de antipsicóticos com maior bloqueio dopaminérgico. Antipsicóticos de segunda geração, como olanzapina, apresentam risco menor que muitos fármacos de primeira geração, mas não eliminam o risco. A APA Practice Guideline de 2020 recomenda inibidores de VMAT2 para discinesia tardia moderada a grave ou incapacitante, principalmente valbenazina ou deutetrabenazina onde disponíveis.
A redução ou retirada do agente causal pode ser considerada quando clinicamente possível, mas a suspensão abrupta deve ser evitada. A retirada rápida pode produzir discinesia de retirada ou desmascarar movimentos previamente suprimidos, com piora transitória. Além disso, em transtorno bipolar, retirar abruptamente o antipsicótico pode desestabilizar o quadro psiquiátrico.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Discinesia tardia não é mais comum em homens jovens. O risco aumenta especialmente com idade avançada e exposição cumulativa, sendo elevado em mulheres idosas e em pessoas com transtornos do humor.
B) Incorreta. A síndrome pode persistir por meses ou anos e nem sempre regride após a retirada do fármaco. Não é correto afirmar que a grande maioria melhora em apenas 3 meses.
C) Correta (gabarito). A suspensão abrupta do bloqueador dopaminérgico deve ser evitada porque os movimentos podem piorar ou emergir após a retirada rápida, além do risco de recaída da doença psiquiátrica. Quando possível, a mudança deve ser planejada e gradual.
D) Incorreta. Levodopa aumenta transmissão dopaminérgica e não é tratamento de primeira linha para discinesia tardia. A terapia farmacológica específica com melhor evidência é a inibição de VMAT2.