Jovem de 17 anos veio à consulta queixando-se de ciclos menstruais irregulares desde a menarca (14 anos), piora da acne e aumento de pelos no rosto e corpo no último ano. Ao exame clínico, apresentava M3 e P5 (estágios de Tanner) e escore de Ferriman de 15 (alterado > 8). Media 158 cm e pesava 66 kg.
Pegadinha central: hiperandrogenismo + irregularidade menstrual não é automaticamente SOP; dose 17-OH progesterona para excluir HAC não clássica.
Deficiência de 21-hidroxilase causa acúmulo de 17-OH progesterona e excesso androgênico.
Em adolescentes, ultrassonografia ovariana não deve ser usada para fechar SOP.
17-OH progesterona basal elevada deve levar a confirmação com estímulo por ACTH conforme valores de referência do método.
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Contexto
A adolescente apresenta dois eixos que podem sugerir síndrome dos ovários policísticos: irregularidade menstrual persistente três anos após a menarca e hiperandrogenismo clínico, demonstrado por hirsutismo com escore de Ferriman de 15 e piora da acne. Antes de confirmar SOP, porém, é obrigatório excluir doenças que mimetizam hiperandrogenismo e anovulação.
Uma das principais é a hiperplasia adrenal congênita não clássica por deficiência de 21-hidroxilase. O bloqueio da 21-hidroxilase desvia precursores esteroidais para produção de androgênios e provoca acúmulo de 17-hidroxiprogesterona. Por isso, a 17-OH progesterona basal é o exame de rastreamento dirigido para esse diagnóstico diferencial.
A ASRM recomenda rastrear deficiência não clássica de 21-hidroxilase com 17-OH progesterona em pacientes com hiperandrogenismo. Valores basais elevados, em torno de 200 ng/dL ou mais conforme método e laboratório, justificam investigação confirmatória com teste de estímulo com ACTH. A coleta basal é preferencialmente matinal e, quando há ciclos, na fase folicular.
A Diretriz Internacional Baseada em Evidências para SOP de 2023 reforça que, em adolescentes, a ultrassonografia ovariana não deve ser utilizada para estabelecer o diagnóstico porque a morfologia multifolicular é frequente fisiologicamente nessa fase. Em adolescentes com irregularidade menstrual persistente e hiperandrogenismo, o diagnóstico é clínico hormonal após excluir causas alternativas.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). A dosagem de 17-OH progesterona pesquisa diretamente o acúmulo do precursor característico da deficiência de 21-hidroxilase e é o exame apropriado para diferenciar HAC não clássica de SOP.
B) Incorreta. Testosterona livre ajuda a confirmar hiperandrogenismo, mas pode estar aumentada tanto na SOP quanto em outras condições. Ela não exclui hiperplasia adrenal congênita não clássica.
C) Incorreta. Ultrassonografia abdominal total não avalia adequadamente o defeito enzimático responsável pela HAC não clássica e não substitui investigação hormonal.
D) Incorreta. Ultrassonografia pélvica não diferencia de forma confiável SOP de HAC não clássica. Além disso, a morfologia policística ao ultrassom não é critério recomendado para diagnóstico de SOP em adolescentes.