Paciente masculino, de 63 anos, veio à consulta por ter apresentado sangue na urina (3 episódios) na semana anterior. Referiu que, no último mês, tivera dores de cabeça recorrentes e visão borrada esporadicamente. Negou uso de bebidas alcoólicas e informou ser tabagista há 40 anos (1 maço/dia). Fazia uso de tansulosina para hiperplasia benigna de próstata há 3 anos. Ao exame, encontrava-se em bom estado geral, afebril, com a face avermelhada; a pressão arterial era de 143/92 mmHg, e a frequência cardíaca, de 88 bpm. O IMC era de 31 kg/m2. Auscultas cardíaca e pulmonar não revelaram anormalidades. O abdômen era inocente. Exame de urina mostrou hemoglobina 3+, 5 leucócitos/campo, 100 hemácias/campo e ausência de cilindros.
A pegadinha central é usar os sintomas aparentemente neurológicos como pista: pletora, cefaleia e visão borrada sugerem hiperviscosidade por eritrocitose paraneoplásica.
Hematúria indolor em idoso tabagista é neoplasia urológica até investigação adequada.
RCC pode secretar eritropoietina e causar policitemia. A tríade hematúria, dor em flanco e massa palpável é tardia e não precisa estar presente.
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Contexto
Hematúria macroscópica recorrente em homem de 63 anos e tabagista de 40 maços-ano exige investigação de neoplasia do trato urinário. Neste caso, a pista adicional é a pletora facial associada a cefaleia e visão borrada, quadro compatível com eritrocitose. O carcinoma de células renais pode produzir eritropoietina de forma paraneoplásica, levando a aumento da massa eritrocitária, hiperviscosidade, cefaleia, rubor e sintomas visuais.
As EAU Guidelines on Renal Cell Carcinoma de 2025 mantêm o tabagismo como importante fator de risco modificável para carcinoma renal. O RCC também pode produzir outras síndromes paraneoplásicas, como hipercalcemia, hipertensão e alterações hepáticas. A tríade clássica de hematúria, dor em flanco e massa palpável é tardia e hoje aparece em minoria dos pacientes. A ausência de cilindros no sedimento e a hematúria macroscópica favorecem origem urológica em vez de glomerular.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Nefropatia por IgA costuma produzir hematúria glomerular, muitas vezes temporalmente relacionada a infecção de mucosas, e pode vir acompanhada de proteinúria, hemácias dismórficas e cilindros hemáticos. Não explica bem a síndrome de hiperviscosidade sugerida pela pletora, cefaleia e visão borrada.
B) Incorreta. Nefrolitíase pode causar hematúria intensa, mas o quadro típico inclui cólica renal de forte intensidade com irradiação para virilha, náuseas e inquietação. O paciente teve episódios de hematúria sem dor e apresenta pistas paraneoplásicas.
C) Incorreta. Angiomiolipoma renal pode sangrar, sobretudo quando volumoso, e é associado à esclerose tuberosa em parte dos casos. Contudo, não é a hipótese que melhor integra idade, tabagismo, hematúria recorrente e possível eritrocitose paraneoplásica.
D) Correta (gabarito). Carcinoma de células renais explica tanto a hematúria macroscópica quanto a provável eritrocitose por produção ectópica de eritropoietina. O tabagismo de longa data aumenta ainda mais a probabilidade de neoplasia urológica.