Homem transgênero com sorologia negativa para HIV, que mantém relacionamento estável com um homem cisgênero em tratamento regular para HIV e carga viral negativa, veio à consulta na UBS para avaliação relacionada à anticoncepção. O paciente informou que ele e seu parceiro tinham outras parcerias sexuais, que adotava a prática de penetração vaginal e anal e que, na maioria das relações, fazia uso de preservativo. Submetera-se a tratamento para sífilis há 5 meses. Foi realizado teste rápido para HIV (resultado negativo) e orientado o uso de preservativo em todas as relações sexuais.
Pegadinha: testosterona não é anticoncepcional, mesmo se houver amenorreia.
I=I: parceiro com carga viral sustentadamente abaixo de 200 cópias/mL tem risco zero de transmissão sexual do HIV.
Outras parcerias, preservativo inconsistente e IST recente sustentam oferta de PrEP conforme preferência do paciente.
PrEP é prevenção contínua; PEP é esquema de 28 dias após exposição.
A prova que você vai prestar tem cara própria. Tem tema que cai todo ano e tema que nunca apareceu, e decidir isso no improviso custa as semanas que você não tem.
O MedBoard começa pelo outro lado. Ele pesa cada tema pela banca que você vai prestar, monta o cronograma a partir disso e guarda o que você errou para devolver na hora certa.
Criar conta grátis
Contexto
Homens trans que mantêm útero e ovários podem ovular e engravidar. Testosterona não é método contraceptivo, mesmo quando provoca amenorreia. A escolha deve ser centrada nas preferências do paciente e pode incluir métodos de longa duração, progestagênios, DIU, implante, anticoncepcionais combinados quando não houver contraindicação ou métodos definitivos conforme desejo reprodutivo.
Entre as alternativas, acetato de medroxiprogesterona de depósito 150 mg intramuscular a cada 3 meses é um método contraceptivo eficaz e pode também reduzir ou suprimir sangramento menstrual, característica potencialmente desejável para alguns homens trans. Não é a única opção possível e deve ser escolhido após aconselhamento sobre eficácia, sangramento, saúde óssea, efeitos adversos e preferências.
Quanto ao HIV, a Nota Técnica nº 376/2023 do Ministério da Saúde formaliza o conceito Indetectável = Intransmissível: carga viral do parceiro abaixo de 200 cópias/mL representa risco zero de transmissão sexual do HIV. Assim, o parceiro fixo com supressão viral sustentada não é fonte de transmissão sexual. Entretanto, este paciente tem outras parcerias, uso inconsistente de preservativo e sífilis recente, elementos que o PCDT de PrEP Oral do Ministério da Saúde de 2025 considera relevantes para oferecer PrEP conforme desejo e contexto de exposição.
O esquema oral disponível no SUS é TDF 300 mg mais FTC 200 mg. Para pessoas com exposição vaginal, a PrEP diária é a modalidade apropriada. Já TDF mais 3TC mais dolutegravir durante 28 dias corresponde à PEP, utilizada depois de uma exposição potencialmente relevante e iniciada o mais precocemente possível, e não como estratégia contínua para exposições recorrentes.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). Medroxiprogesterona trimestral oferece contracepção eficaz e pode ser adequada a um homem trans com potencial gestacional. TDF/FTC diário corresponde à PrEP contínua apropriada para alguém com exposições sexuais recorrentes e desejo de proteção adicional.
B) Incorreta. Testosterona pode reduzir ovulação e causar amenorreia, mas não previne gravidez de forma confiável. Além disso, TDF/3TC mais dolutegravir por 28 dias é esquema de PEP, destinado a uma exposição já ocorrida, e não prevenção contínua.
C) Incorreta. Anticoncepcional combinado pode ser utilizado por alguns homens trans sem contraindicação e não deve ser considerado proibido apenas pela identidade de gênero. O erro decisivo é associá-lo a um esquema de PEP por 28 dias em um contexto de exposições persistentes que favorece PrEP.
D) Incorreta. TDF/FTC diário está correto como PrEP. Anticoncepcional combinado também pode ser contraceptivo eficaz em pessoas elegíveis, portanto esta alternativa não é biologicamente absurda. O gabarito privilegia a medroxiprogesterona de depósito como opção compatível com contracepção eficaz e supressão menstrual sem estrogênio; na prática, a escolha contraceptiva deve ser individualizada.