Paciente feminina, de 24 anos, sem histórico de doenças crônicas e previamente assintomática, procurou a UBS por sentir-se fraca e cansada. Relatou quadro de congestão de vias aéreas superiores, tosse seca, dor no corpo e febre baixa não mensurada, ocorrido há 2 semanas. Na ocasião, fizera uso de 2 doses de dipirona (500 mg por via oral) e não procurara atendimento. Houve melhora dos sintomas das vias aéreas e cessação da sensação de febre. Ao exame clínico, os sinais vitais eram normais. Foram evidenciadas mucosas levemente descoradas; a ausculta pulmonar revelou sibilos expiratórios discretos, sem outros achados positivos. O hemograma indicou hemoglobina de 10 g/dl, hipocromia e microcitose, leucócitos totais de 3.400/mm3 (1.300 neutrófilos/mm3 e 1.100 linfócitos/mm3) e 98.000 plaquetas/mm3. Exames básicos de bioquímica tiveram resultados normais, e testes rápidos para hepatites e vírus da imunodeficiência humana, disponíveis na UBS, foram negativos.
Pegadinha central: ANC 1.300 não é agranulocitose.
Virose pode causar citopenias transitórias, mas alterações persistentes precisam ser investigadas.
Microcitose sugere deficiência de ferro coexistente e não explica pancitopenia sozinha.
Sinais de alarme hematológico: febre, sangramento, blastos, organomegalia, progressão das citopenias ou ANC <500/mm3.
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Contexto
O hemograma mostra redução das três séries: hemoglobina de 10 g/dL, leucócitos de 3.400/mm3 e plaquetas de 98.000/mm3, caracterizando pancitopenia leve a moderada. O contexto de síndrome viral autolimitada há 2 semanas, ausência de febre atual, sinais vitais normais e ausência de achados clínicos de alarme permite considerar supressão medular transitória pós-infecciosa como hipótese inicial.
A contagem absoluta de neutrófilos é de 1.300/mm3, correspondente a neutropenia leve. Isso está muito distante de agranulocitose, que envolve neutropenia profunda, usualmente ANC abaixo de 500/mm3 e muitas vezes abaixo de 100/mm3.
A dipirona pode causar agranulocitose. A Agência Europeia de Medicamentos reforçou em 2024 esse risco e orientou atenção a febre, odinofagia e úlceras de mucosa durante ou após o uso. Entretanto, duas doses de dipirona não explicam melhor este hemograma porque há redução de outras linhagens e o ANC não está na faixa de agranulocitose.
Em pancitopenia leve e recente, uma estratégia razoável é repetir o hemograma em 1 a 2 semanas, idealmente com reticulócitos e esfregaço periférico. Persistência, piora progressiva, blastos, linfonodomegalia, hepatoesplenomegalia, febre, sangramento ou neutropenia grave exigem investigação mais rápida e possível encaminhamento à Hematologia.
A anemia microcítica e hipocrômica merece investigação própria, principalmente com ferritina e avaliação de perdas menstruais ou outras fontes de deficiência de ferro. Portanto, mesmo que leucopenia e plaquetopenia sejam transitórias após a virose, não se deve ignorar a anemia se ela persistir.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). O quadro é de pancitopenia leve a moderada temporalmente associada a episódio viral recente, sem sinais atuais de instabilidade ou infecção grave. A reavaliação do hemograma em 1 a 2 semanas é apropriada, mantendo investigação adicional se as alterações persistirem.
B) Incorreta. Agranulocitose por dipirona é possível, mas exige neutropenia muito mais intensa. ANC de 1.300/mm3 não caracteriza agranulocitose, e há anemia e trombocitopenia concomitantes.
C) Incorreta. A microcitose e hipocromia realmente sugerem deficiência de ferro, mas isso não explica leucopenia e trombocitopenia. Além disso, iniciar ferro sem acompanhamento posterior seria inadequado.
D) Incorreta. Deficiência de vitamina B12 e folato costuma causar macrocitose, não microcitose. Consumo abusivo de álcool também não é sugerido pela história e não é a causa mais provável neste contexto pós-viral.