Gestante de 26 anos, trazida ao Centro Obstétrico em franco trabalho de parto, deu luz a um neonato a termo do sexo feminino, com peso de nascimento de 2.830 g. As sorologias do pré-natal e da admissão à maternidade (teste rápido para sífilis, HIV, hepatite B e toxoplasmose IgM e IgG) eram negativas. A paciente informou à equipe médica que seu marido, com diagnóstico de infecção por HIV há 2 anos, submetia-se a tratamento regular com TARV e que eles mantinham relações sexuais com uso de PrEP (profilaxia pré-exposição). Ao serem analisados os documentos trazidos pelo marido, constatou-se que o resultado do exame de carga viral, em amostra coletada há 35 dias, evidenciava 250 cópias/mm3.
Pegadinha central: mãe com teste rápido negativo ainda pode estar em janela imunológica.
No PCDT 2024, CV ≥50 cópias/mL é detectável e muda a estratificação de risco.
Parceria sorodiferente com CV detectável: aleitamento temporariamente suspenso + CV da mãe e RN + profilaxia neonatal com 3 ARV.
Para RN ≥37 semanas em alto risco: AZT + 3TC + raltegravir é o esquema preferencial.
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Contexto
O caso descreve uma parceria sorodiferente: a mãe testou negativo para HIV no parto, mas sua parceria vive com HIV e apresenta carga viral recente de 250 cópias/mL. O PCDT do Ministério da Saúde para manejo de crianças expostas ao HIV, Módulo 1 de 2024, traz orientação específica para esse cenário.
Para o PCDT, carga viral do HIV igual ou superior a 50 cópias/mL é detectável. Quando a parturiente tem teste de HIV não reagente, mas a parceria não está em TARV adequada ou apresenta carga viral detectável ou desconhecida, existe possibilidade de infecção materna muito recente ainda em janela imunológica. Um teste de anticorpos negativo não exclui essa fase.
Nesse cenário, deve-se suspender temporariamente a amamentação, sem inibir a lactação, coletar carga viral materna e do recém-nascido e iniciar imediatamente profilaxia neonatal combinada. Para recém-nascido a termo com idade gestacional ≥37 semanas, o esquema preferencial de alto risco é zidovudina + lamivudina + raltegravir por 4 semanas.
A PrEP materna reduz o risco de aquisição do HIV, mas não transforma uma exposição com parceria virêmica em risco zero. O resultado da carga viral do companheiro, 250 cópias/mL, é o ponto que impede considerar a situação como segura apenas com o teste rápido materno negativo.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. O teste materno negativo não exclui infecção aguda em janela imunológica. Como a parceria tem carga viral detectável, é necessário investigar a mãe por teste virológico e proteger o recém-nascido enquanto o risco é esclarecido.
B) Incorreta. A amamentação deve ser suspensa inicialmente de forma temporária, não definitivamente. Além disso, anti-HIV não é o teste diagnóstico apropriado para recém-nascido, porque anticorpos maternos podem persistir; devem ser usados testes virológicos.
C) Incorreta. Zidovudina isolada é profilaxia de baixo risco. O cenário de parceria com carga viral detectável e possível infecção materna aguda exige esquema neonatal expandido enquanto se aguarda a investigação virológica.
D) Correta (gabarito). O PCDT 2024 recomenda suspender temporariamente a amamentação, coletar carga viral materna e neonatal e iniciar zidovudina, lamivudina e raltegravir no recém-nascido a termo de alto risco.