Paciente feminina, negra, de 44 anos, consultou na UBS queixando-se de forte ansiedade, tristeza, choro fácil, pensamentos de desvalia, irritabilidade, cansaço excessivo, sensação de esgotamento e de incapacidade de executar as atividades de forma adequada, dificuldade de concentração e atenção, cefaleia e distúrbio do sono. Informou que trabalhava na mesma empresa há 5 anos, que iniciara como recepcionista e que fora promovida em poucos meses para auxiliar de escritório. Há 4 anos havia assumido a chefia do setor, que contava com 10 funcionários e alta demanda de trabalho. Desde então, vinha sofrendo cobranças excessivas e desrespeitosas de sua chefia imediata, inclusive com comentários em relação a sua etnia. Naquela época, começaram os sintomas descritos. Com base no relato, o médico da UBS prescreveu fluoxetina. A paciente retornou à UBS após 2 meses de uso do medicamento e relatou que a situação piorara drasticamente: solicitara um aumento salarial compatível com a função exercida que culminou com sua demissão imediatamente após o afastamento de 14 dias por doença.
Pegadinha central: suspeita de doença do trabalho exige avaliar nexo e capacidade, não só medicar sintomas.
Anamnese ocupacional deve reconstruir exposição e temporalidade.
Assédio e discriminação são exposições psicossociais relevantes.
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Contexto
O relato sugere transtorno mental possivelmente relacionado ao trabalho, com sobrecarga, cobrança abusiva, desrespeito e racismo. O trabalho pode atuar como causa, concausa ou agravante de adoecimento depressivo, ansioso ou de esgotamento.
A primeira avaliação médico-ocupacional deve responder duas perguntas: qual é a capacidade laboral atual e há nexo entre trabalho e adoecimento. Isso exige anamnese ocupacional, temporalidade entre exposição e sintomas, análise da organização do trabalho e repercussão funcional.
CAT pode ser necessária quando houver doença relacionada ao trabalho, mas não substitui a avaliação clínica do nexo e da capacidade. Psicoterapia e farmacoterapia podem ser importantes, porém não bastam se a exposição ocupacional central permanecer sem análise.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. CAT pode integrar a conduta, mas a questão pede a primeira etapa médico-ocupacional, que é avaliar capacidade e nexo.
B) Correta (gabarito). Avaliação da capacidade laboral e do nexo ocupacional orienta afastamento, adaptação, CAT, vigilância e tratamento.
C) Incorreta. Psicoterapia pode ser indicada, mas não substitui a avaliação do componente ocupacional.
D) Incorreta. Ajustar antidepressivo sem reavaliar contexto laboral, funcionalidade e risco ignora um determinante central do quadro.