Saúde mental na atenção primária

Acesso diretoComentada pelo MedBoard
Questão 99
HCPA · 2026

Paciente feminina, de 32 anos, veio à consulta na Atenção Primária com queixa de dor precordial em aperto, sem irradiação, com duração de cerca de 1 hora ao final do dia, quadro iniciado há 6 meses. Relatou cansaço, razão pela qual ficava mais em casa. Negou ortopneia, dispneia paroxística noturna ou dispneia aos esforços; negou, também, tabagismo e etilismo; fazia ginástica 3 vezes/semana. Ao exame físico, não apresentava anormalidades. Informou ter estado na Emergência devido à dor, ocasião em que foram feitos exames laboratoriais e eletrocardiografia, todos normais. Referiu muita preocupação com a saúde desde que perdera a mãe por um infarto há 7 meses. Não acreditava que a dor no peito fosse de origem “psicológica”, como sugerido na última consulta na UPA, mas comentou ter pensamentos persistentes com a mãe, chorar quase todos os dias, ter dificuldade para dormir. Quando chegava ao final do dia, horário próximo ao da morte da mãe, apresentava sensações de formigamento na face e a impressão de ouvir a voz dela vindo do quarto.

Considerando o quadro de sintomas relatado, assinale a alternativa que contempla o tipo de luto, a natureza dos sintomas somáticos e a proposta terapêutica para a situação.
Explicação oficial do MedBoard

Contexto

O caso descreve uma reação de luto ainda compatível com luto não patológico no referencial utilizado pela questão: a perda ocorreu há 7 meses, há tristeza, pensamentos recorrentes, choro, insônia e sintomas corporais ligados temporalmente à lembrança da mãe. A dor torácica já recebeu avaliação de emergência sem evidência de doença cardíaca aguda e aparece sobretudo no horário associado à morte da mãe.

Experiências perceptivas transitórias, como ter a impressão de ouvir a voz da pessoa falecida, podem ocorrer no luto sem significar psicose, especialmente quando são breves, relacionadas ao falecido e não acompanhadas de desorganização, delírios persistentes ou perda de crítica.

A nomenclatura psiquiátrica atual mudou. O DSM-5-TR de 2022 utiliza transtorno do luto prolongado e, para adultos, exige que a morte tenha ocorrido há pelo menos 12 meses, além de saudade ou preocupação intensa e persistente, sintomas adicionais, prejuízo funcional e resposta que exceda normas culturais e sociais. A CID-11 utiliza limiar temporal menor, de pelo menos 6 meses, mas também exige sofrimento persistente, intenso, incapacitante e desproporcional ao contexto sociocultural. Portanto, apenas o tempo de 7 meses não basta para classificar automaticamente o quadro como patológico.

A terapia de reatribuição é uma intervenção psicossocial útil para sintomas somáticos em Atenção Primária. Ela não diz à paciente que a dor é imaginária; valida o sintoma e ajuda a construir a ligação entre sensações físicas, emoções, pensamentos e contexto de vida, reduzindo exames repetitivos sem indicação e favorecendo estratégias adaptativas.

Antidepressivo não deve ser prescrito com o objetivo de impedir que um luto normal se torne patológico. Ele pode ser indicado se houver um transtorno depressivo, ansioso ou outra condição concomitante que preencha critérios próprios.

Alternativa por alternativa

A) Incorreta. O luto pode ser normal, mas antidepressivo não é indicado profilaticamente para impedir transtorno de luto futuro. A medicalização automática do processo de luto não é recomendada.

B) Correta (gabarito). O quadro pode ser compreendido como luto não patológico com expressão somática relacionada à experiência da perda. Após avaliação clínica apropriada, uma intervenção psicossocial de reatribuição ajuda a validar a dor e relacioná-la ao contexto emocional sem repetir investigação cardíaca indiscriminadamente.

C) Incorreta. O enunciado não demonstra critérios suficientes para transtorno do luto prolongado, e antidepressivo não é tratamento automático do luto. No DSM-5-TR, o diagnóstico em adultos sequer é feito antes de 12 meses da morte.

D) Incorreta. O diagnóstico de transtorno do luto prolongado não está estabelecido. A dor torácica já foi avaliada sem sinais de doença aguda e apresenta forte relação temporal com o sofrimento emocional; exames adicionais devem ser guiados por mudança do padrão ou novos sinais de alarme, não repetidos indefinidamente.

Bizu MedBoard
  • Pegadinha central: ouvir brevemente a voz do falecido ou sentir sua presença pode ocorrer no luto normal.

  • DSM-5-TR: transtorno do luto prolongado em adultos exige pelo menos 12 meses após a morte e prejuízo clinicamente significativo.

  • Sintoma somático é real; reatribuição conecta corpo, emoção e contexto sem invalidar a experiência do paciente.

  • Antidepressivo trata transtorno com indicação própria, não previne rotineiramente luto patológico.

Estudar tudo por igual é o que faz o seu tempo não render.

A prova que você vai prestar tem cara própria. Tem tema que cai todo ano e tema que nunca apareceu, e decidir isso no improviso custa as semanas que você não tem.

O MedBoard começa pelo outro lado. Ele pesa cada tema pela banca que você vai prestar, monta o cronograma a partir disso e guarda o que você errou para devolver na hora certa.

Criar conta grátis
Bia
Essa você viu resolvida 😊 Mas “Saúde mental na atenção primária” não cai uma vez só: tem muitas outras questões desse mesmo tema esperando você aqui, todas comentadas assim.
Treinar este tema →