Doenças ocupacionais e nexo causal

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Questão 89
HCPA · 2026

Paciente masculino, de 43 anos, procurou atendimento pela segunda vez no serviço ambulatorial da empresa onde trabalhava. Referiu fadiga, cefaleia, esquecimentos e irritabilidade, quadro iniciado há 2 meses. Trouxe resultados de exames solicitados na consulta anterior: hemograma, glicemia, TSH, dosagem de vitaminas, perfil lipídico, todos dentro dos padrões da normalidade. Há cerca de 2 semanas, apresentou algumas medidas de pressão arterial elevadas, o que nunca havia ocorrido. Negou tabagismo e uso abusivo de álcool ou outras drogas. Supervisor de estoque em uma rede de supermercados, há 3 meses passou a trabalhar no turno noturno, 4 vezes/semana, das 22 às 6 horas, com folga no dia seguinte. Informou que, quando chegava em casa, tomava café da manhã, ajudava a arrumar o filho para a escola e ia dormir. Não fazia uso de medicações contínuas.

Diante da história, qual a hipótese mais provável e qual a intervenção possível na consulta?
Explicação oficial do MedBoard

Contexto

A associação temporal é muito forte: após começar a trabalhar regularmente das 22 às 6 horas, o paciente desenvolveu fadiga, cefaleia, irritabilidade, esquecimentos e provável sono insuficiente durante o dia. O quadro é compatível com desalinhamento circadiano relacionado ao trabalho em turnos.

O organismo humano mantém um ritmo circadiano de aproximadamente 24 horas regulado pelo núcleo supraquiasmático, exposição à luz e secreção de melatonina. O trabalho noturno exige vigília durante a fase biológica de sono e tentativa de dormir durante o período em que o sistema circadiano promove vigília. Isso reduz duração e qualidade do sono e pode causar sonolência, prejuízo cognitivo, alterações de humor e efeitos cardiometabólicos.

A terminologia da alternativa é simplificada. O transtorno formal do sono relacionado ao trabalho em turnos costuma exigir sintomas persistentes associados ao horário laboral e documentação adequada; o paciente relata sintomas há apenas 2 meses. Mesmo assim, o mecanismo e a intervenção escolhidos pela alternativa C são os que melhor explicam o caso.

O primeiro passo deve ser comportamental e ocupacional: proteger um período adequado de sono, reduzir compromissos imediatamente após o turno, organizar luz e cafeína e avaliar possibilidade de adequação da escala. Hipnóticos podem ser considerados por curto prazo em situações selecionadas, mas devem ser usados com cautela pelo risco de sedação residual, dependência e prejuízo de desempenho no turno seguinte.

Alternativa por alternativa

A) Incorreta. Transtorno de estresse agudo exige exposição a evento traumático e sintomas específicos relacionados ao trauma. A mudança para turno noturno é o evento temporal relevante, não um trauma psicológico.

B) Incorreta. O enunciado não descreve humor deprimido persistente, anedonia ou outros critérios suficientes para episódio depressivo. A ligação temporal com o trabalho noturno e sono diurno fragmentado é mais convincente.

C) Correta (gabarito). A mudança para turno noturno precede o aparecimento dos sintomas e produz desalinhamento entre ciclo sono-vigília e ritmo circadiano. Medidas comportamentais são a base do tratamento, e hipnóticos podem ser usados por curto período em casos selecionados.

D) Incorreta. Exercício e técnicas de relaxamento podem ser úteis para saúde geral, mas o eixo do caso não é preocupação excessiva ou ansiedade primária. A causa provável é o desalinhamento circadiano provocado pela escala noturna.

Bizu MedBoard
  • Pegadinha central: sintomas começaram depois da mudança de turno, então procure primeiro o relógio biológico, não um transtorno psiquiátrico primário.

  • Trabalho noturno reduz sono porque o paciente tenta dormir quando o sistema circadiano favorece vigília.

  • Tratamento começa com organização do sono e da exposição à luz; hipnóticos são apenas adjuvantes selecionados e temporários.

  • Privação crônica de sono pode piorar pressão arterial, metabolismo, humor e desempenho cognitivo.

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Bia
Essa você viu resolvida 😊 Mas “Doenças ocupacionais e nexo causal” não cai uma vez só: tem muitas outras questões desse mesmo tema esperando você aqui, todas comentadas assim.
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