Uma paciente com 40 anos comparece à consulta médica no posto de saúde contando que, em razão de suas várias queixas de insônia e dificuldades para dormir, já havia sido orientada sobre higiene do sono, tendo obtido melhora parcial, e que, há um mês e meio, havia se consultado com a enfermeira dessa unidade, que iniciou um tratamento semanal de aplicação de auriculoterapia. Refere ainda que começou, há 3 semanas, a tomar tintura de mulungu, uma planta de que dispõe em sua casa e de que sua família sempre se utiliza, de geração em geração, para ansiedade e insônia. No momento, a paciente relata ter obtido uma resposta muito boa a esse tratamento, mas afirma que a consulta se deve à preocupação com 1 episódio de insônia que teve há 1 semana.
Pegadinha central: acolher prática tradicional não significa afirmar que qualquer produto caseiro é comprovadamente seguro.
Auriculoterapia tem oferta e capacitação dentro da atenção primária do SUS.
Um episódio isolado após melhora não indica hipnótico.
Fitoterapia responsável exige identificar espécie, dose, preparo, interações e eventos adversos.
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Contexto
A paciente apresentou melhora sustentada com higiene do sono, auriculoterapia e uma prática fitoterápica de tradição familiar, procurando atendimento por um único episódio isolado. Isso não caracteriza, por si só, falha terapêutica ou transtorno de insônia crônica. A abordagem adequada é centrada na pessoa, preservando vínculo, autonomia e seguimento, sem escalonar imediatamente para hipnótico.
A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares foi instituída em 2006, e a sessão de auriculoterapia foi incorporada à tabela de procedimentos da atenção básica em 2017. Portanto, essa prática não é exclusiva de centros especializados e pode ser realizada na atenção primária por profissional capacitado.
Erythrina mulungu integra a lista de plantas medicinais de interesse do SUS, mas isso não equivale a comprovação definitiva de eficácia, segurança ou padronização de uma tintura doméstica. O gabarito valoriza o uso tradicional e a boa resposta, sem medicalização desnecessária. Na prática, o médico deve identificar espécie, modo de preparo, concentração, dose, procedência, uso de álcool na tintura, medicamentos concomitantes e possíveis efeitos sedativos, hipotensivos ou interações. A manutenção deve ocorrer com uso racional e vigilância, não como autorização irrestrita.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Suspender automaticamente apenas por se tratar de planta tradicional rompe a abordagem compartilhada e ignora a boa resposta e a ausência de evento adverso. A suspensão seria indicada se houvesse toxicidade, interação, identificação incerta, dose inadequada ou outra contraindicação.
B) Incorreta. Um episódio isolado após melhora não justifica zolpidem nem encaminhamento psiquiátrico automático. Hipnóticos têm riscos de tolerância, dependência, sonolência residual, quedas e comportamentos complexos durante o sono.
C) Correta (gabarito). A paciente está estável e satisfeita com o cuidado, portanto pode manter auriculoterapia e o uso tradicional acompanhado, com orientação de retorno diante de piora, novos sintomas ou efeitos adversos. O acompanhamento deve incluir avaliação de segurança da tintura.
D) Incorreta. Auriculoterapia pode ser ofertada na atenção primária por profissionais capacitados e não precisa ficar restrita a centros especializados.