Um homem com 46 anos comparece à consulta acompanhado de sua esposa e solicita atestado para justificar 2 dias de ausência no trabalho. Refere que, há 2 dias, apresenta diminuição do apetite, cefaleia, fadiga, tristeza e sentimento de culpa. A esposa refere que ele ingeriu grande quantidade de bebida alcoólica numa festa e que chegou em casa sendo carregado por amigos na noite anterior ao início dos sintomas. Segundo ela, isso costuma acontecer há 1 ano, cerca de 2 vezes ao mês. Após essas situações, o paciente fica bastante entristecido, não quer sair da cama e acaba faltando ao trabalho. Entre os episódios de ingesta de bebida, o paciente trabalha, estuda e tem bom funcionamento familiar e social. Nega comorbidades e uso de medicações. Ao exame físico, não apresenta alterações.
Prejuízo sem dependência ainda é transtorno relacionado ao álcool e precisa de intervenção.
Sintomas por dois dias após binge não fecham episódio depressivo maior.
Abstinência ocorre após reduzir ou parar uso crônico com adaptação fisiológica.
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Contexto
O paciente apresenta episódios recorrentes de consumo intenso de álcool, aproximadamente duas vezes por mês durante um ano, seguidos de sintomas físicos e emocionais e de faltas ao trabalho. Há prejuízo funcional diretamente relacionado ao consumo, mas entre os episódios ele mantém bom funcionamento e não há descrição de tolerância, fissura, abstinência, prioridade crescente da bebida ou perda persistente de controle.
Esse padrão corresponde ao conceito cobrado como uso nocivo de álcool, isto é, consumo que já produz consequências adversas sem preencher o quadro clássico de dependência. A terminologia atual da CID-11 utiliza padrão nocivo de uso e considera dano à saúde física ou mental do próprio indivíduo ou dano a terceiros.
Os sintomas de tristeza, culpa, fadiga e cefaleia duram apenas dois dias e aparecem logo após intoxicação importante. Não cumprem duração mínima nem independência temporal para episódio depressivo maior. Também não representam abstinência, que costuma envolver tremor, sudorese, ansiedade, insônia, náusea, taquicardia e hipertensão após redução ou interrupção em pessoa com uso contínuo e adaptação fisiológica.
A consulta deve incluir abordagem motivacional, aplicação de instrumento como AUDIT, avaliação de risco, aconselhamento para interrupção do consumo e oferta de tratamento. O atestado não deve ser a única resposta ao prejuízo ocupacional repetido.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). Há padrão recorrente de consumo com consequências ocupacionais e emocionais, sem critérios demonstrados de dependência.
B) Incorreta. Dependência exige conjunto de fenômenos como forte desejo, perda de controle, prioridade do álcool, tolerância ou abstinência, não descritos.
C) Incorreta. Episódio depressivo requer sintomas por pelo menos duas semanas, com prejuízo não explicado apenas por intoxicação ou efeito imediato de substância.
D) Incorreta. Os sintomas seguem um episódio de grande ingestão e não a interrupção de consumo contínuo dependente. Faltam tremor e hiperatividade autonômica típicos.