Uma mulher de 33 anos vai a uma consulta com um clínico geral por se sentir muito deprimida, referindo tristeza e desânimo, que começaram há 6 meses. Ela conta que é natural e procedente de São Paulo, programadora de computadores, católica não praticante, casada há 6 anos, com dois filhos, e que é sedentária. Refere sentir muita fadiga, cansaço, indisposição e sono e que ganhou 7 kg nesse período. Nega ter pensamentos de morte, de culpa ou de menos-valia. Conta, também, que recebeu diagnóstico de depressão e, por isso, usou fluoxetina durante 2 meses, até 60 mg por dia, sem apresentar melhora significativa. Por fim, referiu ter irregularidade menstrual e constipação. Ao exame, apresenta-se hidratada, corada, afebril, sem edemas, anictérica. Seus sinais vitais estão sem alterações, exceto a frequência cardíaca que está 48 batimentos por minuto em repouso. À ausculta cardíaca, notam-se bulhas normofonéticas, sem sopros.
A pegadinha é chamar todo humor deprimido de depressão primária. Bradicardia, constipação, ganho de peso e irregularidade menstrual pedem TSH e T4 livre.
Falha ao antidepressivo não confirma causa orgânica, mas aumenta a necessidade de revisar diagnóstico, adesão, tempo terapêutico e doenças clínicas.
Hipotireoidismo franco é TSH elevado com T4 livre baixo.
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Contexto
O quadro não deve ser tratado como depressão primária antes de excluir uma causa clínica. A associação de humor deprimido, fadiga, hipersonia, ganho ponderal, constipação, irregularidade menstrual e bradicardia de 48 bpm forma um conjunto típico de redução do metabolismo sistêmico, especialmente por hipotireoidismo. A ausência de culpa, menos-valia e ideação de morte não afasta um episódio depressivo, mas os sinais vegetativos e cardiovasculares objetivos deslocam a investigação para doença endócrina.
O principal rastreio é feito com TSH e T4 livre. TSH elevado com T4 livre baixo confirma hipotireoidismo primário franco; TSH elevado com T4 livre normal caracteriza hipotireoidismo subclínico. Quando os sintomas afetivos são consequência fisiopatológica direta de outra doença, o diagnóstico psiquiátrico adequado é transtorno depressivo devido a outra condição médica, chamado na prova de transtorno depressivo secundário. A falta de resposta à fluoxetina reforça a necessidade de corrigir a causa de base, embora não seja, isoladamente, critério diagnóstico.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. O transtorno depressivo persistente exige humor deprimido crônico por pelo menos 2 anos no adulto e não explica, por si, bradicardia, constipação, irregularidade menstrual e ganho de peso.
B) Correta (gabarito). O conjunto de sintomas depressivos com sinais sistêmicos de hipotireoidismo aponta para transtorno depressivo secundário a uma condição médica, devendo-se investigar inicialmente a função tireoidiana.
C) Incorreta. O transtorno de sintomas somáticos envolve preocupação desproporcional e persistente com sintomas físicos; aqui existem achados objetivos coerentes com uma doença endócrina específica.
D) Incorreta. Burnout é fenômeno relacionado ao contexto ocupacional, com exaustão, distanciamento mental do trabalho e redução da eficácia profissional. Não explica a constelação metabólica e cardiovascular apresentada.