Recém-nascido de 14 dias, hipoativo e com desconforto respiratório, é levado para avaliação na Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Antecedentes obstétricos: não foi realizado pré-natal e o parto ocorreu a termo no domicílio. Exame clínico: hipoativo e pouco responsivo, hipocorado, cianótico. Aparelho respiratório: 70 irpm com tiragem subcostal. Murmúrio vesicular diminuído bilateralmente. Saturação de O2 em ar ambiente de 82%. Aparelho cardiovascular: pulsos débeis, tempo de perfusão capilar de 5 segundos. Frequência cardíaca de 160 bpm, com ritmo cardíaco regular. Abdome globoso, com fígado a 2,5 cm do rebordo costal direito, presença de halo de hiperemia e edema em torno do coto umbilical.
Pegadinha central: coto umbilical inflamado em recém-nascido tóxico é onfalite até prova em contrário e deve ser tratado como possível sepse invasiva.
Choque neonatal não tolera reposição volêmica cega; use alíquotas e reavalie perfusão, fígado, pulmões e pressão a cada etapa.
OMS 2024: sepse neonatal hospitalar, ampicilina mais gentamicina; se houver suspeita estafilocócica com onfalite, cloxacilina mais gentamicina é a referência.
Antibiótico deve ser precoce; culturas não podem atrasar tratamento de um recém-nascido em choque.
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Contexto
O recém-nascido de 14 dias apresenta sepse neonatal tardia com choque e um foco infeccioso evidente: halo de hiperemia e edema ao redor do coto umbilical, compatível com onfalite. Hipoatividade, cianose, saturação de 82%, taquipneia de 70 irpm, pulsos débeis e tempo de enchimento capilar de 5 segundos indicam doença sistêmica grave com hipoxemia e hipoperfusão.
Em recém-nascidos, choque séptico pode ter componentes distributivos e miocárdicos, mas, diante de infecção invasiva, a classificação cobrada é choque distributivo séptico. A conduta não espera confirmação laboratorial: assegurar via aérea e oxigenação, obter acesso vascular, colher culturas quando isso não atrasar o tratamento, administrar antimicrobianos rapidamente, realizar expansão volêmica em pequenos bolus com reavaliação frequente e iniciar vasoativo se a perfusão permanecer inadequada.
As recomendações da OMS de 2024 para infecções bacterianas graves em lactentes de 0 a 59 dias orientam, para sepse hospitalar, ampicilina associada a gentamicina como esquema empírico de primeira escolha. Quando há suspeita de sepse estafilocócica, situação especialmente relevante em presença de onfalite, a OMS recomenda cloxacilina mais gentamicina. O esquema final deve considerar epidemiologia local, resistência bacteriana, culturas e gravidade.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Cardiopatia ducto-dependente pode causar choque e cianose no período neonatal, e prostaglandina E1 seria apropriada quando essa hipótese é forte. Aqui, porém, há foco infeccioso umbilical claro e sinais sistêmicos de sepse, tornando choque séptico a explicação principal.
B) Incorreta. Choque neurogênico exige contexto de lesão medular ou disfunção autonômica e costuma cursar com perda do tônus simpático. Não explica onfalite, hipoatividade e síndrome infecciosa neonatal. Corticoide também não é tratamento de rotina desse cenário.
C) Incorreta. Choque obstrutivo por pneumotórax hipertensivo exigiria sinais como assimetria ventilatória importante, deterioração súbita e evidência de pressão intratorácica elevada. O murmúrio vesicular está diminuído bilateralmente e existe foco infeccioso evidente; não há indicação de punção torácica empírica.
D) Correta (gabarito). O quadro é compatível com choque distributivo por sepse neonatal secundária a onfalite. Suporte ventilatório, acesso vascular, reposição volêmica cautelosa com reavaliação, antibióticos precoces e vasoativos diante de choque persistente compõem o tratamento inicial.