Lactente de 10 meses foi levada ao pediatra com quadro de lesões verrucosas perianais de início há um mês, que foram aumentando em quantidade. A mãe, 14 anos, refere que ele nasceu no parto vaginal, assistido por pediatra, sem complicações, permanecendo em aleitamento materno exclusivo até 2 meses. Por vezes, a bebê ficava sozinha com o avô paterno. Foi verificado que o calendário vacinal está em dia, e que no cartão de acompanhamento pré-natal há registro de oito consultas, sem intercorrências. O laudo de exame colposcópico, realizado com seis meses de gestação, mostrou lesão NIC grau I. Ao exame físico, a criança está em bom estado geral, mas apresenta lesões condilomatosas acuminadas em região perianal. O restante do exame físico apresentou resultado normal.
Pegadinha central: condiloma anogenital em criança pequena não prova abuso sexual, mas sempre exige avaliação clínica cuidadosa dessa possibilidade.
Transmissão perinatal de HPV é possível e ganha plausibilidade quando há doença materna durante a gestação e início precoce das lesões.
Condiloma acuminado é HPV; condiloma plano lembra sífilis secundária.
Segundo o CDC 2021, verrugas que surgem pela primeira vez após os 5 anos são mais sugestivas de transmissão sexual.
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Contexto
As lesões descritas são condilomas acuminados anogenitais por HPV. Em lactentes e crianças pequenas, a transmissão pode ocorrer por vias não sexuais, incluindo transmissão vertical ou perinatal e autoinoculação ou heteroinoculação. O antecedente materno de lesão cervical compatível com HPV durante a gestação e o aparecimento das verrugas aos 10 meses tornam a transmissão perinatal uma hipótese plausível e explicam o gabarito A.
As STI Treatment Guidelines do CDC de 2021 fazem uma ressalva essencial: verrugas anogenitais em crianças são consideradas um achado suspeito para abuso sexual, mas não diagnóstico por si só. Verrugas também são observadas em crianças sem evidência de abuso, e lesões que surgem pela primeira vez depois dos 5 anos têm maior probabilidade de transmissão sexual do que as que aparecem em crianças muito pequenas.
Portanto, o raciocínio correto é duplo. Para responder à questão, a idade e a exposição materna favorecem transmissão perinatal. Na prática clínica, porém, toda criança com lesão anogenital compatível com HPV deve ter história e exame cuidadosos e, quando houver qualquer elemento de preocupação, avaliação por equipe treinada em proteção infantil. O fato de a criança ter ficado sob cuidados de um familiar não prova transmissão sexual.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). O aparecimento de condilomas no primeiro ano de vida em criança cuja mãe apresentava lesão cervical por HPV durante a gestação é compatível com transmissão vertical ou perinatal. Essa via é reconhecida em lactentes e crianças pequenas.
B) Incorreta. Abuso sexual deve ser considerado na avaliação de qualquer verruga anogenital infantil, mas a lesão isolada não comprova essa via de transmissão. Neste caso, idade precoce e antecedente materno tornam a via perinatal a principal hipótese da prova.
C) Incorreta. Sífilis adquirida pode causar condiloma plano na fase secundária, uma lesão úmida e achatada, mas não condiloma acuminado verrucoso típico de HPV.
D) Incorreta. Sífilis congênita possui manifestações sistêmicas e cutaneomucosas próprias e não se apresenta tipicamente como múltiplos condilomas acuminados perianais isolados aos 10 meses.