Há duas semanas, mulher de 40 anos apresenta febre, cefaleia, mialgia, coriza clara, evoluindo com dor em região cervical anterior, irradiando para o ouvido direito, e febre de 38,5°C. Os exames laboratoriais mostram: hemoglobina = 12 g/dl; leucócitos = 10.500/mm3; plaquetas = 250.000/mm3; T4 livre = 2,1 ng/ml (normal = 0,7 a 1,8 ng/ml); TSH = 0,01 m/U/ml (normal = - 0,4 a 4,5 mU/ml); VHS = 80 mm na primeira hora; exame de captação de iodo radioativo = 2,5% (normal = 25% a 35%).
Pegadinha central: TSH baixo não significa sempre hiperprodução hormonal; captação baixa identifica tireotoxicose por destruição da glândula.
De Quervain: dor cervical pós-viral, VHS muito alta e captação de iodo baixa.
Antitireoidianos não funcionam na tireoidite destrutiva. Use controle inflamatório e betabloqueador quando necessário.
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Contexto
O quadro é de tireoidite subaguda granulomatosa de De Quervain. O roteiro clássico é infecção viral ou síndrome respiratória antecedente, seguida de dor cervical anterior que pode irradiar para mandíbula ou ouvido, febre, VHS muito elevada e tireotoxicose transitória. A paciente apresenta T4 livre elevado, TSH suprimido e captação de iodo radioativo de apenas 2,5%.
O ponto fisiopatológico decisivo é que a tireotoxicose decorre de destruição folicular e liberação de hormônio já armazenado, e não de síntese aumentada. Por isso, a captação de iodo fica baixa e antitireoidianos como propiltiouracil ou metimazol não têm utilidade. A American Thyroid Association mantém essa distinção nas recomendações para tireoidites.
O tratamento depende da intensidade. Casos leves costumam receber anti-inflamatório não esteroidal. Dor moderada a intensa ou resposta inadequada ao anti-inflamatório justifica glicocorticoide. Betabloqueador controla manifestações adrenérgicas da fase tireotóxica. No caso, febre, dor irradiada e inflamação intensa tornam o esquema com corticoide e betabloqueador a melhor alternativa disponível.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Graves causa produção aumentada de hormônio, portanto a captação costuma estar difusamente elevada. Na tireoidite destrutiva, propiltiouracil não funciona porque o problema é liberação de estoque hormonal, não nova síntese.
B) Correta (gabarito). Dor cervical pós-viral, VHS de 80 mm/h, tireotoxicose e captação de 2,5% formam o padrão clássico de tireoidite subaguda granulomatosa. Corticoide é apropriado para inflamação dolorosa importante e betabloqueador reduz sintomas adrenérgicos.
C) Incorreta. Tireoidite aguda supurativa é infecção bacteriana, costuma produzir dor localizada intensa, toxicidade sistêmica e eventualmente abscesso. Antibiótico e drenagem são corretos nesse cenário, mas não explicam a tireotoxicose destrutiva pós-viral com VHS alta e captação baixa.
D) Incorreta. Tireoidite de Hashimoto é geralmente indolor e conduz predominantemente a hipotireoidismo crônico. Tamoxifeno não é tratamento da doença.