Menina de 4 anos é levada à consulta ambulatorial de rotina. Responsável nega comorbidades e intercorrências no período interconsultas. Na anamnese dirigida, refere que a menina não gosta de verduras e legumes e, normalmente, ingere apenas frituras, lanches, biscoitos recheados e sucos artificiais. Relata que ela não brinca com outras crianças e fica durante todo o dia no tablet, dorme pouco, pois só consegue dormir de madrugada e acorda quase na hora do almoço. À ectoscopia, apresenta panículo adiposo proeminente, sendo restante do exame físico normal. Pressão arterial tanto sistólica quanto diastólica no percentil 90; escore Z de IMC/idade > +2.
Pegadinha central: em pré-escolar, não escolha remédio antiobesidade como primeira resposta; o tratamento é familiar e comportamental.
Orlistat não é indicado para uma criança de 4 anos.
OMS atual para menores de 5 anos usa pontos de corte diferentes dos empregados na alternativa: acima de +3 define obesidade.
Percentil 90 de pressão arterial isolado não fecha hipertensão; confirme com medidas seriadas e técnica adequada.
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Contexto
A criança tem 4 anos e apresenta alimentação ultraprocessada, sedentarismo intenso, excesso de tempo de tela, sono inadequado e adiposidade evidente. Esses fatores exigem abordagem familiar imediata e investigação de possíveis repercussões cardiometabólicas. O tratamento inicial nessa idade é comportamental e familiar, com reorganização da alimentação, atividade física, sono e rotina de telas.
Há uma divergência de nomenclatura entre a prova e os referenciais atuais. O enunciado informa escore Z de IMC/idade maior que +2 e o gabarito o chama de obesidade grau I. Para crianças menores de 5 anos, a classificação atual da OMS é mais conservadora: valores acima de +2 desvios-padrão correspondem a excesso de peso ou sobrepeso e valores acima de +3 definem obesidade, conforme o indicador utilizado. Assim, o termo grau I usado na prova não deve ser transportado automaticamente para a classificação antropométrica atual de pré-escolares.
Apesar dessa diferença terminológica, a conduta da alternativa D é a única clinicamente adequada. A diretriz da American Academy of Pediatrics de 2023 considera o tratamento intensivo de hábitos de saúde e estilo de vida a base do cuidado e admite programas familiares estruturados também dos 2 aos 5 anos. Orlistat não é opção para uma criança de 4 anos e, nos Estados Unidos, é aprovado apenas a partir de 12 anos. Avaliação de pressão arterial, história familiar e sinais de comorbidades integra o cuidado longitudinal.
A pressão arterial no percentil 90 não define hipertensão, mas merece acompanhamento. Em pediatria, a interpretação depende de idade, sexo e estatura e exige medidas repetidas antes de rotular hipertensão.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. A conduta farmacológica está errada. Orlistat não é apropriado para uma criança de 4 anos e não substitui intervenção familiar sobre alimentação, atividade, sono e comportamento.
B) Incorreta. Mesmo aceitando a classificação empregada pela prova, prescrever orlistat aos 4 anos é inadequado. O tratamento deve começar por intervenção comportamental familiar e avaliação clínica das repercussões do excesso de adiposidade.
C) Incorreta. A mudança de estilo de vida está correta, mas a alternativa não contempla a classificação esperada pelo gabarito nem a necessidade de avaliar repercussões associadas. Pela nomenclatura atual da OMS, contudo, Z acima de +2 em menor de 5 anos deve ser interpretado com cuidado e não equivale automaticamente a obesidade grau I.
D) Correta (gabarito). É a alternativa que associa a classificação adotada pela prova à conduta adequada: intervenção familiar em alimentação e estilo de vida e avaliação de comorbidades. A terminologia antropométrica deve ser atualizada conforme a referência utilizada.