Paciente de 56 anos, com obesidade grau 1, procura emergência às 13h por “pressão alta” após discussão em casa. Encontra-se agitada, chorosa, com tremores de extremidades. Nega sintomas precordiais no momento do exame ou em episódios anteriores. Relata estar triste na última semana pelas brigas com o marido. Observa-se pressão = 172 x 94mmHg e glicemia = 200mg/dL. Com a paciente em observação, foi administrado captopril sublingual e insulina regular subcutânea. Após normalização da pressão e da glicemia, ela foi liberada com os diagnósticos de hipertensão arterial, diabetes e depressão.
A pegadinha é transformar alterações reativas em três doenças crônicas.
PA elevada sem lesão aguda de órgão-alvo não é emergência hipertensiva.
Glicemia casual de 200 mg/dL sem sintomas clássicos requer confirmação; depressão maior exige duração mínima de duas semanas.
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Contexto
O PCDT de Hipertensão Arterial Sistêmica do Ministério da Saúde, publicado pela Portaria SECTICS/MS nº 49 de 2025, orienta confirmar hipertensão com medidas adequadas e repetidas, exceto em elevações muito intensas ou quando há doença cardiovascular ou lesão de órgão-alvo que permitam diagnóstico imediato. Uma pressão de 172 por 94 mmHg durante agitação, choro e conflito familiar, sem dano agudo a órgão-alvo, não define hipertensão crônica nem emergência hipertensiva.
Glicemia casual de 200 mg/dL confirma diabetes apenas quando acompanhada de sintomas clássicos de hiperglicemia ou crise hiperglicêmica; na ausência deles, o resultado precisa ser confirmado por teste diagnóstico em outro momento. Tristeza por uma semana após conflitos não preenche, isoladamente, episódio depressivo maior, que exige pelo menos duas semanas com sintomas nucleares e repercussão clínica. Redução rápida e indiscriminada de pressão ou glicose pode produzir iatrogenia.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Não há critérios suficientes para hipertensão nem depressão, e não foram descritos sinais de emergência que obriguem permanência hospitalar.
B) Incorreta. Acerta que hipertensão e diabetes não estão confirmados, mas erra ao indicar tratamento emergencial continuado sem lesão aguda de órgão-alvo, crise hiperglicêmica ou instabilidade.
C) Incorreta. Uma medida de pressão, uma glicemia casual sem sintomas clássicos e uma semana de tristeza não fecham três diagnósticos crônicos.
D) Correta (gabarito). Após excluir urgência real e estabilizar o sofrimento agudo, cabe alta com orientação, medidas repetidas de pressão, confirmação laboratorial da glicemia e avaliação longitudinal do humor.