Um idoso de 82 anos, engenheiro aposentado, comparece à atenção primária à saúde (APS) por queixa de esquecimento. A filha refere que o quadro se iniciou há seis meses, com lapsos de memória e redução da capacidade de realização das atividades de vida diária. Ele relata o falecimento da esposa um mês antes dos sintomas. Ao exame neurológico, o paciente está desperto, orientado, mas demonstra apatia e abulia. Apresenta leve tremor de intenção simétrico nas mãos, com melhora em repouso, sendo o restante do exame normal. O miniexame do estado mental tem resultado de 26 pontos.
A pegadinha é considerar o luto uma exclusão diagnóstica: luto pode desencadear depressão maior.
Apatia, abulia e queixa de memória podem dominar a depressão no idoso.
Trate o humor e acompanhe a cognição, porque depressão não exclui demência concomitante.
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Contexto
O caso reúne início após evento de luto, evolução relativamente rápida em seis meses, apatia, abulia e queixa cognitiva com desempenho global pouco comprometido no miniexame. Esse perfil favorece episódio depressivo maior com comprometimento cognitivo associado, apresentação historicamente chamada de pseudodemência depressiva.
O luto não impede o diagnóstico de depressão maior quando há sintomas persistentes, prejuízo funcional e síndrome depressiva completa. Em idosos, depressão pode manifestar-se mais por desmotivação, lentificação, queixas somáticas e dificuldade de concentração do que por tristeza verbalizada. A avaliação deve incluir instrumento como Escala de Depressão Geriátrica, investigação de risco suicida, medicamentos, sono, tireoide, vitamina B12 e causas neurológicas.
O diagnóstico não deve encerrar o seguimento cognitivo. Depressão e doença neurodegenerativa podem coexistir, e déficit persistente após melhora do humor exige reavaliação neuropsicológica. O miniexame de 26 pontos não exclui comprometimento cognitivo, pois a interpretação depende de escolaridade e funcionalidade.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). A relação temporal com o luto, a apatia e a abulia, a evolução curta e o rastreio cognitivo relativamente preservado tornam depressão maior a hipótese principal.
B) Incorreta. Demência vascular costuma associar fatores vasculares, evolução em degraus, déficit executivo desproporcional, alterações de marcha ou sinais neurológicos focais, ausentes no enunciado.
C) Incorreta. Doença de Alzheimer geralmente começa de modo insidioso e progressivo por prejuízo de memória episódica, sem vínculo temporal tão marcado com evento afetivo. Ainda assim, deve ser reconsiderada se o déficit persistir após tratamento do humor.
D) Incorreta. Demência com corpos de Lewy exige combinação de flutuação cognitiva, alucinações visuais recorrentes, transtorno comportamental do sono REM e parkinsonismo. Tremor de intenção não corresponde ao tremor de repouso parkinsoniano.