Pegadinha central: prevenção quaternária não é sinônimo de tirar remédio; é retirar ou evitar o que não oferece benefício líquido.
AAS tem papel claro na prevenção secundária; na prevenção primária, a indicação é restrita e depende de risco cardiovascular e hemorrágico.
Após infarto, estatina não é excesso de cuidado. É prevenção secundária baseada em evidência.
Benzodiazepínico crônico deve ser desprescrito de forma gradual quando houver indicação de retirada.
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Contexto
Prevenção quaternária é a estratégia de identificar pessoas expostas a sobremedicalização e protegê-las de intervenções desnecessárias, sem benefício líquido ou potencialmente iatrogênicas. O conceito difundido pela WONCA não significa simplesmente suspender tratamentos: a retirada precisa ser baseada em evidência, risco, benefício e contexto clínico. Deprescrever uma intervenção sem indicação é prevenção quaternária; retirar uma terapia efetiva de prevenção secundária ou interromper abruptamente um fármaco com risco de abstinência é iatrogenia.
O AAS não é indicado rotineiramente para prevenção cardiovascular primária em adultos jovens de baixo risco, porque o pequeno ou ausente benefício absoluto pode ser superado pelo risco de sangramento. Já após infarto do miocárdio, estatina integra prevenção secundária. Benzodiazepínico em uso crônico e em dose elevada deve ser reduzido gradualmente, não retirado abruptamente. Rastreamento de HIV e sífilis deve ser ofertado conforme risco e vulnerabilidade, e não negado a uma pessoa com exposição sexual relevante e longo intervalo desde os últimos testes.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. A prevenção quaternária evita exames sem indicação, mas não justifica negar rastreamento pertinente. Profissional do sexo com exames realizados há cerca de três anos tem indicação de oferta de testagem conforme avaliação de risco, prevenção combinada e protocolos de infecções sexualmente transmissíveis.
B) Incorreta. Interromper abruptamente clonazepam após seis anos de uso, ainda mais em dose de 6 mg ao dia, pode produzir abstinência importante, incluindo ansiedade, insônia rebote, sintomas autonômicos e convulsões. A estratégia protetora é planejar desprescrição gradual quando indicada.
C) Incorreta. Infarto prévio define doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida. Estatina é tratamento de prevenção secundária e sua retirada sem contraindicação remove uma intervenção de benefício comprovado. O fato de não ter havido implante de stent não elimina a indicação.
D) Correta (gabarito). Em homem de 38 anos, hipertenso e sem outros fatores descritos nem doença cardiovascular estabelecida, AAS de rotina para prevenção primária não apresenta benefício líquido que justifique o risco hemorrágico. Suspender uma medicação desnecessária e potencialmente nociva é exemplo de prevenção quaternária.