Homem de 45 anos, casado, chega ao consultório referindo cansaço intenso, dificuldade de concentração e diminuição do apetite. Além disso, percebe-se triste, choroso e, apesar de cansado, tem acordado em torno das 5h30 da manhã, cerca de 1h antes do necessário. Diz que se sente “um peso para os familiares”, pois não tem conseguido trabalhar regularmente, nem sente prazer em realizar atividades que antes gostava de fazer, como assistir ao seu time de futebol jogar e ficar com a família. Tais sintomas estão presentes há mais de duas semanas.
Pegadinha central: perguntar sobre suicídio não induz comportamento suicida; é parte obrigatória da avaliação de segurança.
Não basta perguntar se o paciente quer morrer: investigue intenção, plano, meios disponíveis e tentativas anteriores.
Depressão com duração de pelo menos duas semanas, anedonia e prejuízo funcional exige avaliação estruturada, mas internação depende do risco, não apenas do diagnóstico.
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Contexto
O quadro preenche critérios clínicos para um episódio depressivo: há humor deprimido, anedonia, fadiga, redução da concentração e do apetite, despertar precoce, sentimento de inutilidade ou de ser um peso e prejuízo ocupacional, com duração superior a duas semanas. A expressão de que se sente um peso para a família é especialmente relevante porque pode acompanhar desesperança e ideação suicida. Nesse momento da entrevista, a prioridade é perguntar diretamente sobre suicídio e estratificar risco.
A avaliação não termina em perguntar se existe vontade de morrer. Deve explorar ideação suicida, frequência e intensidade dos pensamentos, intenção, existência de plano, acesso aos meios, preparação, tentativas anteriores, uso de álcool ou outras substâncias, sintomas psicóticos, impulsividade, suporte disponível e fatores protetores. Ferramentas de rastreio do NIMH, como o ASQ, incluem perguntas diretas sobre desejo de morte, percepção de que a família estaria melhor sem o paciente, pensamentos de se matar e tentativas prévias. Perguntar sobre suicídio não cria a ideia nem aumenta o risco; omitir a pergunta pode deixar um risco grave sem reconhecimento.
A investigação de causas secundárias deve ser guiada pela história e pelo exame. Exames laboratoriais podem ser selecionados conforme idade, sintomas e suspeitas clínicas, mas ressonância de crânio, endoscopia e ultrassonografia abdominal não são exames de rotina para estabelecer o diagnóstico de depressão.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. A hospitalização não deve ser decretada apenas porque o paciente está deprimido. Primeiro é necessário avaliar risco suicida, capacidade de autocuidado, psicose, agitação, suporte e possibilidade de tratamento seguro. Internação pode ser necessária em risco grave ou iminente, mas isso ainda não foi estabelecido no enunciado.
B) Incorreta. O erro central é não perguntar sobre suicídio. A ideia de que a pergunta induz suicídio é um mito perigoso. Além disso, iniciar fluoxetina em dose fixa de 40 mg antes de completar avaliação clínica, risco suicida, diagnóstico diferencial e plano de seguimento não é a conduta que a questão está cobrando.
C) Correta (gabarito). Perguntar explicitamente sobre suicídio permite estimar gravidade e decidir se o paciente pode seguir tratamento ambulatorial ou precisa de medidas imediatas de segurança. Neste caso, o sentimento de ser um peso para os familiares aumenta a necessidade de uma avaliação direta.
D) Incorreta. Não existem sinais neurológicos focais, síndrome abdominal específica ou outro dado que justifique esse conjunto de exames como primeira conduta. O diagnóstico de episódio depressivo é essencialmente clínico, com investigação complementar direcionada por hipóteses específicas.