Considerando-se a seguinte tabela, do artigo: Di Forti M, Quattrone D, Freeman TP et al. The contribution of cannabis use to variation in the incidence of psychotic disorder across Europe (EU-GEI): a multicenter case-control study. Lancet Psychiatry. 2019 May;6(5):427-436 e o estudo de caso-controle, analisar os itens abaixo:

I. Os casos em que o paciente sabe que tem a doença estudada têm mais probabilidade de lembrar se foram expostos. Essa situação é chamada de viés de memória.
II. A fração atribuível na população FAP (em inglês PAF) responde à seguinte pergunta: Qual a incidência da doença em uma população associada com a prevalência de um fator de risco?
III. A chance de ocorrer um transtorno psicótico entre usuários diários de maconha (daily cannabis use) foi 3,2 vezes mais elevada em comparação com não usuários, e a chance entre usuários de maconha de alta potência (high-potency cannabis) foi 1,6 vezes mais elevado do que nos não usuários.
Pegadinha: em caso-controle, interprete OR como odds, não automaticamente como risco relativo.
Viés de memória aparece quando casos e controles recordam exposição passada de forma diferente.
FAP combina prevalência da exposição e magnitude da associação para estimar a parcela populacional atribuível à exposição, sob pressuposto causal.
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Contexto
Estudos caso-controle partem do desfecho e investigam retrospectivamente exposições anteriores. Por isso, estão particularmente sujeitos a viés de memória: pessoas que sabem estar doentes podem recordar ou relatar exposições passadas de modo diferente dos controles. A medida de associação típica é a odds ratio, OR.
Na tabela do estudo EU-GEI, para a amostra total, o uso diário de cannabis apresenta OR ajustada 3,2, IC95% 2,2 a 4,1, enquanto o uso de cannabis de alta potência apresenta OR ajustada 1,6, IC95% 1,2 a 2,2. Como os intervalos não incluem 1, ambas as associações são estatisticamente significativas na análise apresentada. A interpretação correta é em termos de odds: usuários diários apresentam odds de transtorno psicótico 3,2 vezes as dos não usuários, e usuários de cannabis de alta potência apresentam odds 1,6 vez as dos não usuários.
A fração atribuível populacional, FAP ou PAF, estima a proporção dos casos na população que seria atribuível à exposição e potencialmente evitável se a exposição fosse eliminada, assumindo relação causal e demais pressupostos. Ela depende tanto da força da associação quanto da frequência da exposição. Não responde simplesmente “qual é a incidência da doença associada à prevalência do fator de risco”.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. O item I está correto, mas o III também. Viés de memória é relevante em caso-controle porque o conhecimento do diagnóstico pode modificar a recordação da exposição.
B) Incorreta. O item II formula incorretamente a FAP. Ela expressa a proporção da carga populacional do desfecho atribuível à exposição sob hipótese causal, não uma incidência determinada apenas pela prevalência do fator de risco.
C) Incorreta. O item III está correto, mas o I também. A tabela mostra OR ajustada de 3,2 para uso diário e 1,6 para cannabis de alta potência na amostra total.
D) Correta (gabarito). I e III estão corretos. O erro está no conceito de FAP apresentado no item II.