Paciente do sexo masculino, 71 anos, com diagnóstico recente de neoplasia gástrica com indicação cirúrgica, refere inapetência progressiva nos últimos 2 meses, que acredita estar associada à piora da depressão. Mede 1,75m e seu peso prévio usual era de 83kg (IMC 27,1kg/m2). Atualmente está pesando 71kg (IMC 23,1kg/m2). Refere náuseas, nega vômitos e evacua diariamente.
Pegadinha central: IMC normal não neutraliza perda de peso involuntária importante.
Perda de aproximadamente 10% a 15% do peso em poucos meses deve acender alerta para alto risco nutricional no pré-operatório.
Se o intestino funciona, prefira via oral ou enteral; parenteral é exceção, não atalho.
Em cirurgia de grande porte, a janela clássica de otimização nutricional pré-operatória é de cerca de 7 a 14 dias quando clinicamente viável.
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Contexto
O dado que fecha o caso não é o IMC atual, e sim a perda ponderal involuntária. O paciente perdeu 12 kg em 2 meses, de 83 para 71 kg, o que corresponde a cerca de 14,5% do peso habitual. Essa magnitude de perda em curto intervalo caracteriza risco nutricional importante apesar do IMC de 23,1 kg/m2. A diretriz prática da ESPEN para nutrição clínica em cirurgia recomenda terapia nutricional pré-operatória em pacientes com risco nutricional grave, inclusive quando isso exige breve adiamento de cirurgia oncológica eletiva, sendo em geral apropriado um período de 7 a 14 dias.
Quando o trato gastrointestinal funciona, a sequência preferencial é alimentação oral otimizada, suplemento nutricional oral e, se a ingestão for insuficiente, nutrição enteral. Nutrição parenteral fica reservada para o paciente desnutrido ou de alto risco em que as necessidades não podem ser adequadamente atendidas por via oral ou enteral. A náusea isolada não transforma a via parenteral em primeira escolha.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. O IMC isolado perde o poder de tranquilizar quando há perda ponderal involuntária importante. Um paciente pode permanecer com IMC na faixa de eutrofia e, ainda assim, apresentar desnutrição ou risco nutricional grave.
B) Incorreta. A perda de peso indica suporte nutricional, mas não define a via parenteral. Como não há vômitos persistentes, obstrução ou falência intestinal, deve-se priorizar a via oral ou enteral. A parenteral seria apropriada se o trato gastrointestinal não pudesse ser utilizado ou não conseguisse suprir adequadamente as necessidades.
C) Correta (gabarito). O paciente tem perda ponderal de aproximadamente 14,5% em apenas 2 meses e será submetido a cirurgia oncológica de grande porte. A otimização por via oral ou enteral por pelo menos uma semana é compatível com a janela de 7 a 14 dias recomendada para pacientes de alto risco nutricional.
D) Incorreta. Não é necessário aguardar 30 dias para obter benefício. Em pacientes selecionados, a intervenção pré-operatória de 7 a 14 dias já é recomendada, equilibrando melhora do estado nutricional com o risco de atrasar o tratamento definitivo.