Um estudo realizado no início da pandemia de covid-19, publicado em maio de 2023 (Kamioka GA et al. Soroprevalência de anticorpos do vírus SARS-CoV-2 em escolares no município de São Paulo, 2020. Revista Saúde Publica. 2023;57(Supl 1):6s.), teve como objetivo estimar a soroprevalência de anticorpos do vírus SARS-CoV-2 em escolares de 4 a 14 anos de idade residentes no município de São Paulo, durante o período de fechamento das escolas como medida de controle de covid-19. Realizou-se aleatoriamente a coleta de dados entre os dias 1o e 16 de setembro de 2020, no domicílio da criança sorteada, uma vez que as aulas presenciais estavam suspensas no período de realização do estudo. A entrevista foi feita com a criança e um responsável presente no momento da visita, por meio de um formulário de coleta de dados semiestruturado, que compreendia questões sobre informações socioeconômicas, demográficas, epidemiológicas e de medidas de prevenção da doença. Com isso, identifique as possíveis limitações do estudo, analisando as afirmativas a seguir:
I. Houve dificuldades na coleta das amostras e nas entrevistas com os escolares, o que requereu um aumento em 50% no tamanho da amostra para se obter a precisão fixada.
II. Como havia uma mobilização na comunidade durante a pandemia, provavelmente houve pouca recusa dos responsáveis pelo escolar em atender a equipe de pesquisa ou do próprio escolar em querer participar do estudo.
III. Os testes sorológicos podem gerar resultados falsos negativos em infecções recentes.
A pegadinha central é confundir aumentar a amostra para prever não resposta com eliminar o viés de não resposta.
O estudo previu 50% de não resposta no sorteio e ainda registrou recusas e dificuldades de acesso.
Sorologia pode ser falsa-negativa antes da soroconversão e não é teste ideal para definir infecção ativa.
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Contexto
O estudo de Kamioka e colaboradores, publicado na Revista de Saúde Pública em 2023, foi um inquérito sorológico transversal com amostragem aleatória estratificada de escolares de 4 a 14 anos do município de São Paulo. A coleta ocorreu nos domicílios em setembro de 2020, durante o fechamento das escolas.
O próprio artigo descreve uma limitação importante de campo: dificuldades de localizar domicílios, obter acesso, encontrar criança e responsável e conseguir consentimento ou assentimento. O desenho amostral previu 50% de não resposta e aumentou o número de escolares sorteados para compensar essa perda e manter a precisão desejada. Isso não elimina o viés de não resposta, porque os participantes efetivamente avaliados ainda podem diferir sistematicamente dos não participantes.
A afirmativa II inverte o que ocorreu. Houve recusas tanto de responsáveis quanto de escolares, além de outros motivos de não participação. Em inquérito domiciliar, pressupor que mobilização comunitária reduzirá recusas não substitui a mensuração real da não resposta.
A terceira limitação decorre da janela imunológica. O teste utilizado detectava anticorpos totais IgG e IgM e tinha sensibilidade informada de 86,4% e especificidade de 99,6%. Infecção recente pode ocorrer antes da soroconversão, produzindo resultado sorológico falso-negativo; além disso, sorologia não determina com segurança se a infecção está ativa no momento da coleta.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). I e III reproduzem limitações metodológicas reconhecidas pelo próprio estudo: necessidade de compensar não resposta esperada de 50% e possibilidade de falso-negativo sorológico em infecção recente.
B) Incorreta. I é verdadeira, mas II é falsa. Os autores relatam recusa de responsáveis e de escolares entre as causas de não resposta, além de problemas de localização e acesso aos domicílios.
C) Incorreta. III é verdadeira, mas II é falsa; além disso, exclui I, que descreve corretamente a ampliação amostral planejada para compensar perdas.
D) Incorreta. Nem todas são corretas porque II contradiz as limitações efetivamente observadas na coleta.