Paciente feminina de 35 anos chega ao pronto atendimento referindo dor de garganta irradiada para mandíbula, tremores nas mãos, palpitações, perda de 3Kg em 1 semana, hiperevacuação, insônia e agitação. Relata ter tido episódio de infecção viral 10 dias antes. Ao exame físico tem febrícula, pele quente e sudorética, aumento difuso da tireoide com dor intensa à palpação. Nos exames apresenta TSH <0,001 (0,3-4,5mUI/mL); T4 livre 2,9 (0,89-1,78mcg/dL); T3 280 (80-200mg/dL); velocidade de hemossedimentação elevada, leucograma normal e captação de iodo na cintilografia de 0,2%.
Pegadinha central: tireotoxicose com captação baixa significa liberação de hormônio armazenado, não produção aumentada.
Tireoide dolorosa pós-viral mais VHS alta é de Quervain até prova em contrário.
Use AINE e betabloqueador; corticoide entra se dor for importante ou refratária.
Tionamida não trata tireoidite destrutiva.
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Contexto
O quadro é clássico de tireoidite subaguda granulomatosa, também chamada tireoidite de de Quervain. A combinação de dor intensa em tireoide após síndrome viral, VHS elevada, tireotoxicose e captação de iodo muito baixa discrimina essa entidade de doença de Graves e de hipertireoidismo por síntese aumentada.
A tireotoxicose decorre de destruição dos folículos e liberação para a circulação de T4 e T3 previamente armazenados. A glândula não está fabricando hormônio em excesso; por isso a captação de iodo fica suprimida, aqui em apenas 0,2%, e as tionamidas não têm benefício.
As recomendações da American Thyroid Association para tireotoxicose orientam anti-inflamatório não esteroidal e betabloqueador nos casos leves a moderados e sintomáticos. Se a dor for intensa desde o início ou não responder adequadamente ao AINE, corticosteroide pode ser utilizado. Betabloqueador controla tremor, palpitação e taquicardia durante a fase tireotóxica.
O curso costuma ser autolimitado: fase tireotóxica pode ser seguida por hipotireoidismo transitório e posterior recuperação. Uma minoria evolui com hipotireoidismo permanente.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Tireoidite bacteriana aguda costuma apresentar febre alta, toxicidade, leucocitose e sinais infecciosos mais intensos. Antibiótico não é indicado no padrão pós-viral destrutivo descrito.
B) Incorreta. Abscesso tireoidiano implica infecção supurativa focal, geralmente com febre, leucocitose e coleção à imagem, podendo exigir drenagem. Esses elementos não aparecem no caso.
C) Correta (gabarito). Dor pós-viral, VHS elevada, tireotoxicose e captação praticamente ausente definem tireoidite subaguda. O tratamento inicial é anti-inflamatório para a dor e betabloqueador para os sintomas adrenérgicos.
D) Incorreta. Tireoidite autoimune crônica costuma ser indolor. Além disso, droga antitireoidiana não funciona na tireotoxicose destrutiva porque não há aumento da síntese hormonal.