Homem, 30 anos de idade, refere queimação e dormência na ponta dos pés há 14 dias, que ascendeu até joelhos e mãos, seguida de fraqueza em membros inferiores com dificuldade para deambular. Nega alterações urinárias e intestinais. O exame neurológico evidencia ausência de reflexos osteotendíneos e comprometimento de sensibilidade superficial e profunda.
Pegadinha central: fraqueza ascendente + arreflexia = pense primeiro em Guillain-Barré; nível sensitivo + esfíncteres + sinais piramidais deslocam o raciocínio para medula.
O nadir ocorre em até 4 semanas. Progressão além de 8 semanas levanta a possibilidade de polirradiculoneuropatia desmielinizante inflamatória crônica de início agudo.
Líquor normal no começo não exclui o diagnóstico. A dissociação albuminocitológica pode aparecer mais tarde.
Na prova, lembre também da complicação que mata: insuficiência respiratória e disautonomia.
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Contexto
A combinação de fraqueza progressiva bilateral, parestesias ascendentes e arreflexia em evolução por dias a poucas semanas é o fenótipo clássico da síndrome de Guillain-Barré, uma polirradiculoneuropatia inflamatória aguda, geralmente imunomediada. A diretriz EAN/PNS de 2023 reforça como elementos centrais do quadro típico a progressão da fraqueza e a redução ou ausência dos reflexos tendinosos, com nadir em até 4 semanas.
O comprometimento sensitivo costuma ser menos intenso que o motor, mas parestesias e perda de sensibilidade podem ocorrer. A ausência de disfunção urinária e intestinal importante favorece neuropatia periférica em vez de lesão medular. Líquor e eletroneuromiografia dão suporte ao diagnóstico: a dissociação albuminocitológica pode aparecer no líquor, mas pode estar ausente na primeira semana, portanto um líquor inicialmente normal não exclui Guillain-Barré.
Todo paciente deve ser avaliado quanto a progressão respiratória e disautonomia. Quando há incapacidade de caminhar sem auxílio, os tratamentos modificadores de doença são imunoglobulina intravenosa ou plasmaférese. Corticoide isolado não é tratamento eficaz para a síndrome.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Mielite transversa sugere lesão medular e costuma produzir nível sensitivo, disfunção esfincteriana e, após a fase inicial de choque medular, sinais piramidais como hiperreflexia e Babinski. O caso aponta para sistema nervoso periférico.
B) Incorreta. Polimiosite causa fraqueza predominantemente proximal e simétrica, sem perda sensitiva típica. Arreflexia difusa não é o achado discriminador de uma miopatia inflamatória.
C) Correta (gabarito). A evolução ascendente em 14 dias, com parestesias, fraqueza de membros inferiores e ausência de reflexos osteotendíneos, compõe o padrão clássico de Guillain-Barré.
D) Incorreta. Esclerose lateral amiotrófica combina sinais de neurônio motor superior e inferior, tem evolução crônica e preserva a sensibilidade. Um quadro sensitivo ascendente em duas semanas não se encaixa.
E) Incorreta. Miastenia gravis produz fraqueza fatigável, frequentemente ocular, bulbar ou proximal, com sensibilidade normal e reflexos preservados. Não causa parestesias ascendentes.