Mulher, 78 anos de idade, há 4 dias teve duas quedas, sem perda da consciência, mas com fratura de clavícula esquerda. O ortopedista indicou tratamento conservador e analgesia com tramadol e cetoprofeno. A paciente evoluiu com confusão (diferente das confusões habituais), desatenção, fala sem nexo, alucinações visuais, com períodos de alguma melhora e de piora. A paciente mora sozinha e, segundo sua sobrinha, “às vezes se confunde com as coisas”, precisa de ajuda nas atividades instrumentais de vida diária e é independente nas atividades básicas de vida diária.
Pegadinha central: desatenção + início agudo + flutuação = delirium.
Demência preexistente é fator de risco forte para delirium sobreposto.
Em idoso com delirium, sempre revise medicamentos, dor, infecção, retenções, distúrbios metabólicos e hidratação.
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Contexto
Delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda caracterizada por alteração da atenção e da consciência, com instalação em horas ou dias e curso tipicamente flutuante. Desatenção, discurso desorganizado, alucinações visuais e períodos alternados de melhora e piora são achados muito sugestivos.
A paciente provavelmente já apresenta comprometimento cognitivo crônico, pois necessita de ajuda nas atividades instrumentais e “às vezes se confunde”, o que aumenta sua vulnerabilidade. Sobre esse substrato surgiram precipitantes clássicos de delirium: trauma, dor, mudança de rotina e medicamentos potencialmente deliriogênicos. Tramadol pode provocar sedação, confusão e outros efeitos centrais; anti-inflamatórios podem contribuir indiretamente por efeitos renais ou metabólicos. A prioridade é identificar e tratar a causa precipitante, revisar fármacos, controlar dor de forma segura e aplicar medidas não farmacológicas de orientação e prevenção de complicações.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). Início em quatro dias, desatenção, alteração cognitiva global, alucinações e flutuação ao longo do dia formam o fenótipo clássico de delirium, provavelmente sobreposto a comprometimento cognitivo prévio.
B) Incorreta. Demência rapidamente progressiva evolui ao longo de semanas ou meses, não com flutuação marcante instalada em poucos dias após trauma e introdução de medicamentos.
C) Incorreta. Traumatismo craniano pode precipitar alteração mental, mas não há relato de trauma de crânio, perda de consciência ou déficit focal. O padrão sindrômico apresentado é delirium.
D) Incorreta. Lesão renal aguda pode precipitar delirium, especialmente em idoso em uso de anti-inflamatório, mas não há dados laboratoriais para diagnosticá-la. Ela seria uma possível causa, não o diagnóstico sindrômico imediato.