Considere os três estudos fictícios abaixo (I, II e III): I. Um estudo transversal, incluindo pessoas com o mesmo risco cardiovascular, mostrou que o consumo de alimentos ricos em betacaroteno estava associado de forma inversa (RP=0,74; IC95%: 0,62- 0,89) com a ocorrência de evento cardiovascular. II. Em estudo de coorte, que acompanhou 20 mil pessoas com o mesmo risco cardiovascular por 15 anos, o consumo de alimentos ricos em betacaroteno teve associação inversa (RR=0,85; IC95%: 0,77- 0,97) com a incidência de evento cardiovascular. III. Com as evidências dos estudos observacionais acima citados, foi realizado um ensaio clínico incluindo pessoas com o mesmo risco cardiovascular, que após randomização, recebiam extrato de betacaroteno ou placebo. Foi evidenciado maior incidência de eventos cardiovasculares no grupo que recebeu a intervenção com betacaroteno (RR=1,58; IC95%: 1,10-3,45) comparado ao grupo placebo.
Associação protetora de alimentos não comprova benefício de um suplemento isolado.
Para RR e RP, IC95% que não cruza 1 indica significância no teste usual de 5%.
Hierarquia de evidência exige avaliar qualidade e aplicabilidade; não se resolve contando estudos.
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Contexto
A pergunta contrapõe associação observacional com alimentos e efeito experimental de um suplemento. Pessoas que consomem alimentos ricos em betacaroteno podem ter alimentação globalmente melhor, praticar mais exercício ou apresentar outros fatores protetores. Mesmo com risco cardiovascular basal semelhante, permanece possibilidade de confundimento residual. No estudo transversal, ainda não se estabelece adequadamente a sequência temporal entre exposição e desfecho.
A randomização de um ensaio bem conduzido tende a equilibrar fatores prognósticos conhecidos e desconhecidos, aumentando a validade interna para avaliar o efeito da intervenção. No estudo III, RR de 1,58 significa aumento relativo de 58% no risco com extrato de betacaroteno. O IC95% de 1,10 a 3,45 exclui 1, indicando associação estatisticamente significativa, embora com imprecisão na magnitude.
Não se decide por contagem de estudos favoráveis. Além da qualidade metodológica, importa que alimento e extrato não são exposições equivalentes. Nos dados apresentados, a intervenção não deve ser recomendada. Na prática, a USPSTF, em 2022, também recomendou contra suplementação com betacaroteno para prevenção cardiovascular ou de câncer, recomendação grau D. Isso não equivale a contraindicar os alimentos que o contêm.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). O estudo III testa a suplementação diretamente e mostra dano significativo. Entre as evidências fornecidas e presumindo boa condução metodológica, é a base mais apropriada para não recomendar essa intervenção.
B) Incorreta. Dois estudos observacionais não vencem um ensaio por maioria numérica. Além do confundimento, o benefício associado a alimentos não pode ser transferido automaticamente ao extrato.
C) Incorreta. Para RP e RR, a hipótese nula corresponde a 1. Os três intervalos excluem esse valor, portanto todos os resultados apresentados são estatisticamente significativos no nível de 5%.
D) Incorreta. Os resultados permitem rejeitar a recomendação da suplementação nas condições estudadas. Divergência entre desenhos não significa ausência de informação útil, especialmente quando há sinal experimental de dano.