Mulher de 24 anos, vítima de atropelamento por motocicleta, é admitida em centro hospitalar de trauma. Encontra-se com via aérea pérvia, murmúrios vesiculares presentes e simétricos, frequência cardíaca de 90 bpm; pressão arterial = 115 x 75 mmHg; tempo de enchimento capilar normal, consciente, orientada, pupilas isocóricas e fotorreagentes. Dor abdominal em flanco e hipocôndrio esquerdos. Realizada tomografia de abdome, demonstrada a seguir. As demais fases do exame não trouxeram informações adicionais.


Pegadinha central: no trauma esplênico fechado, estabilidade hemodinâmica pesa mais que o grau da lesão para decidir entre manejo não operatório e laparotomia.
Estável e sem peritonite: tratamento não operatório, com observação e possibilidade de angioembolização conforme achados vasculares e gravidade.
Instabilidade persistente, peritonite ou outra lesão que exija laparotomia: tratamento operatório.
Controle de danos é uma estratégia para paciente fisiologicamente crítico, não sinônimo de qualquer trauma esplênico.
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Contexto
A tomografia mostra lesão traumática esplênica, com áreas hipodensas compatíveis com lacerações do parênquima. A decisão inicial no trauma esplênico fechado é guiada principalmente pela fisiologia, não apenas pela aparência da lesão. Esta paciente tem pressão de 115 x 75 mmHg, frequência cardíaca de 90 bpm, enchimento capilar normal, consciência preservada e ausência de irritação peritoneal, portanto está hemodinamicamente estável e sem indicação clínica imediata de laparotomia.
O consenso da World Society of Emergency Surgery de 2022 sobre trauma esplênico reforça o tratamento não operatório como estratégia de escolha no paciente estável, desde que exista capacidade de monitorização, reavaliação seriada e acesso imediato a cirurgia e radiologia intervencionista se houver deterioração. O manejo inclui observação clínica, controle seriado de hemoglobina e sinais vitais e reavaliação conforme a evolução.
A presença de lesão de alto grau ou de sinais vasculares na tomografia pode indicar angiografia com embolização em pacientes selecionados, mas grau anatômico alto, isoladamente, não obriga esplenectomia em paciente estável. Cirurgia é prioritária quando há instabilidade persistente apesar da ressuscitação, peritonite difusa ou outra lesão abdominal que exija laparotomia. O enunciado ainda informa que as demais fases da tomografia não acrescentaram achados, não descrevendo extravasamento ativo que imponha outra intervenção.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Esplenectomia imediata não é indicada apenas porque há laceração esplênica na tomografia. Em paciente estável e sem peritonite, a preservação esplênica por tratamento não operatório é preferida. Esplenectomia torna-se necessária quando o sangramento não pode ser controlado ou o paciente permanece instável.
B) Incorreta. Laparotomia de controle de danos é reservada ao trauma grave com instabilidade e fisiologia ameaçadora, como hemorragia não controlada associada a hipotermia, acidose e coagulopatia. Nada disso aparece no caso.
C) Correta (gabarito). A paciente está estável, sem peritonite e com lesão esplênica definida por tomografia. Esse é o cenário clássico para tratamento não operatório monitorizado, com possibilidade de embolização caso surja indicação vascular.
D) Incorreta. Laparoscopia não é a estratégia de rotina para hemostasia de trauma esplênico contuso em paciente estável. Se não há indicação operatória, a abordagem é conservadora; se houver hemorragia arterial tratável em paciente estável, a radiologia intervencionista costuma ser a opção de preservação do baço.