Na década em curso, o Brasil vem passando por epidemias simultâneas de três arboviroses. Nos últimos dois anos, o quadro tornou-se ainda mais complexo, com a reemergência da febre amarela na região sudeste do país.
Pegadinha central: reação cruzada sorológica importante é dengue com Zika, não dengue com chikungunya.
Dengue: segunda infecção, extremos de idade, gestação, comorbidades e sinais de alarme aumentam preocupação com evolução grave.
Febre amarela: gestação exige avaliação de risco e benefício em situação epidemiológica relevante; não memorize doença renal crônica isolada como contraindicação absoluta universal.
Zika na gestação pode causar síndrome congênita; a hipótese de larvicida como causa da teratogenicidade não é sustentada.
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Contexto
Dengue, chikungunya, Zika e febre amarela são arboviroses, mas pertencem a grupos virais e têm problemas diagnósticos distintos. Dengue, Zika e febre amarela são flaviviroses, enquanto chikungunya é causada por um alphavírus. Por isso, a reação sorológica cruzada relevante ocorre principalmente entre flavivírus, especialmente dengue e Zika, e não entre dengue e chikungunya.
Quanto à dengue, a OMS mantém em suas orientações atuais que uma segunda infecção está associada a maior risco de dengue grave. O Ministério da Saúde também reconhece maior risco em extremos de idade, gestação, comorbidades e história de infecção prévia por outro sorotipo. A literatura epidemiológica clássica, refletida no gabarito da questão, também descreve idade e características genéticas ou étnicas do hospedeiro como modificadores de risco. Atualmente, etnia isoladamente não é usada como critério clínico de decisão; a estratificação prática se apoia sobretudo em sinais de alarme, condições especiais, comorbidades e evolução clínica. A OMS publicou em 2025 diretriz integrada para manejo de dengue, chikungunya, Zika e febre amarela.
Na febre amarela, a vacina é de vírus vivo atenuado. O Ministério da Saúde informa que a vacinação de gestantes é evitada de rotina, mas pode ser considerada após avaliação de risco e benefício quando há risco epidemiológico relevante e não é possível adiar. Doença renal crônica isolada não é uma contraindicação absoluta universal à vacina contra febre amarela; o estado clínico, imunossupressão e demais condições precisam ser avaliados. Para Zika, a relação causal reconhecida é entre infecção materna pelo vírus e síndrome congênita, não entre exposição ao larvicida usado no controle vetorial e teratogenicidade.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. A grande dificuldade de reação cruzada sorológica envolve vírus antigenicamente relacionados, sobretudo dengue e Zika, ambos flavivírus. Chikungunya pertence a outro gênero viral, de modo que essa não é a principal limitação sorológica apontada entre dengue e chikungunya.
B) Incorreta. A gestação é situação em que a vacina contra febre amarela é evitada de rotina, porém pode haver vacinação excepcional após avaliação de risco e benefício em cenário epidemiológico relevante. Além disso, doença renal crônica por si só não constitui contraindicação absoluta geral para todos os pacientes, tornando a afirmação incorreta.
C) Correta (gabarito). A alternativa reproduz o conjunto clássico de fatores associados à gravidade da dengue: idade, características do hospedeiro e infecção secundária, especialmente por sorotipo diferente. O ponto de maior rendimento atual é a infecção prévia, pois a segunda infecção está associada a maior risco de formas graves.
D) Incorreta. A síndrome congênita e as malformações fetais estão causalmente relacionadas à infecção materna pelo vírus Zika. Não há base para atribuir a teratogenicidade da infecção ao larvicida empregado no controle do Aedes.