Menina, 1 mês e 18 dias de idade, apresenta tosse há 7 dias, que evoluiu com piora do padrão respiratório há 2 dias, sem febre, sem outras queixas. Trata-se de criança nascida de termo, parto vaginal, sem intercorrências perinatais. Apresentou quadro de conjuntivite na terceira semana de vida, resolvido com uso de colírio de tobramicina. Ao exame clínico, criança em bom estado geral, descorada 1+/4+; hidratada, acianótica, anictérica, afebril. Exame pulmonar com estertores finos em base direita, com presença de tiragem subdiafragmática leve FR = 62 irpm; saturação de 89% em ar ambiente. Ausculta cardíaca sem alterações; FC = 180 bpm. Exame abdominal com fígado a 3 cm do rebordo costal direito, baço percutível há 1 cm do rebordo costal esquerdo. Boa perfusão periférica. Sem outras alterações ao exame clínico. Realizada radiografia de tórax, com presença de infiltrado intersticial bilateral, mais intenso em base direita, com sinais de hiperinsuflação e espessamento brônquico. Área cardíaca de tamanho normal.
Pegadinha central: conjuntivite neonatal seguida semanas depois de pneumonia afebril = Chlamydia trachomatis até prova em contrário.
Radiografia clássica: hiperinsuflação com infiltrado intersticial bilateral; eosinofilia pode ajudar.
Colírio isolado não trata adequadamente infecção neonatal por clamídia porque não erradica os focos extraoculares.
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Contexto
O quadro é clássico de pneumonia afebril do lactente por Chlamydia trachomatis. O CDC descreve essa pneumonia como doença subaguda entre 1 e 3 meses de vida, caracterizada por tosse repetitiva em staccato, taquipneia, hiperinsuflação e infiltrados bilaterais difusos. Eosinofilia periférica pode ocorrer. O antecedente de conjuntivite neonatal reforça muito a hipótese porque a mesma infecção perinatal pode primeiro causar conjuntivite e, semanas depois, pneumonia.
A ausência de febre é um dado discriminativo. A radiografia com infiltrado intersticial bilateral, hiperinsuflação e espessamento brônquico também encaixa no padrão. O fato de a conjuntivite ter melhorado com colírio não exclui clamídia: tratamento exclusivamente tópico da conjuntivite não erradica a colonização de nasofaringe e não previne necessariamente a pneumonia, razão pela qual a infecção neonatal por C. trachomatis requer tratamento sistêmico.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Bronquiolite viral aguda é comum nessa idade e pode causar taquipneia, hiperinsuflação e estertores, mas costuma vir após pródromo de coriza e congestão, frequentemente com sibilância ou crepitações difusas. A associação com conjuntivite neonatal prévia e pneumonia afebril aponta para clamídia.
B) Incorreta. Síndrome aspirativa exigiria história de engasgos, refluxo importante, alteração de deglutição, malformação ou outra condição predisponente. Não explica a sequência conjuntivite neonatal seguida de pneumonia afebril.
C) Incorreta. Miocardite pode causar taquipneia e hepatomegalia por insuficiência cardíaca, mas seria esperado algum conjunto de disfunção cardiovascular, como má perfusão, ritmo de galope, cardiomegalia ou congestão pulmonar. A área cardíaca normal e o padrão infeccioso respiratório tornam essa hipótese menos provável.
D) Correta (gabarito). Idade de cerca de 7 semanas, tosse subaguda, ausência de febre, taquipneia, hiperinsuflação, infiltrado intersticial bilateral e antecedente de conjuntivite formam a síndrome típica da pneumonia afebril do lactente por Chlamydia trachomatis.