Lactente masculino, 3 meses de vida, está em consulta ambulatorial de rotina. Tem antecedente de prematuridade de 34 semanas de gestação, devido a pré-eclâmpsia e trabalho de parto prematuro, tendo nascido com peso de 1.820 g, adequado para a idade gestacional. Nasceu bem, sem necessidade de manobras de reanimação, permaneceu internado por 15 dias para tratamento de icterícia por incompatibilidade ABO e para ganho de peso. Atualmente a criança tem estatura de 59 cm e peso de 4.700 g (ambos no percentil 50 pela idade gestacional corrigida), tendo ganhado 32 g por dia desde a última consulta. Alimenta-se de seio materno complementando com fórmula infantil adequada para idade (30 mL, 7 vezes ao dia). Nega intercorrências desde o nascimento. Na semana passada, colheu hemograma que veio com Hb 10,0 g/dL, Ht 30,0%, VCM 82 fl, RDW 14,1%, com leucócitos e plaquetas sem alterações.
Pegadinha central: em prematuro, a dose profilática é escolhida pelo peso ao nascer, não pela hemoglobina isolada nem pelo peso atual.
1.500 a 2.500 g: 2 mg/kg/dia; 1.000 a 1.500 g: 3 mg/kg/dia; menor que 1.000 g: 4 mg/kg/dia, todos iniciando aos 30 dias no primeiro ano.
Questão antiga, regra preservada: a atualização SBP 2026 manteve 2 mg/kg/dia para a faixa de 1.500 a 2.500 g.
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Contexto
Prematuros nascem com reservas de ferro menores porque grande parte da transferência placentária de ferro ocorre no terceiro trimestre. Depois do nascimento, ainda apresentam crescimento acelerado e expansão rápida da massa eritrocitária. Por isso, a profilaxia começa mais cedo e a dose é definida pelo peso ao nascer, não pelo peso atual.
Esta criança nasceu com 34 semanas e 1.820 g, portanto entra na faixa de 1.500 a 2.500 g. O Consenso da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2018, citado pela própria questão, recomenda 2 mg/kg/dia de ferro elementar a partir de 30 dias de vida durante o primeiro ano. A atualização da SBP de 2026 mantém esse mesmo esquema para prematuros ou recém-nascidos de baixo peso entre 1.500 e 2.500 g; entre 12 e 24 meses, a recomendação atual é 1 mg/kg/dia de ferro elementar de forma contínua.
O hemograma não deve ser interpretado automaticamente como anemia ferropriva. Aos 3 meses, especialmente em prematuros, pode haver anemia fisiológica da prematuridade; VCM normal e RDW não elevado também não são o padrão clássico de ferropenia avançada. Se houvesse deficiência de ferro confirmada, a dose deixaria de ser profilática e passaria à faixa terapêutica. Outro detalhe atual é que a quantidade de ferro fornecida pela fórmula deve entrar no cálculo total, mas a pequena complementação descrita não autoriza simplesmente omitir a profilaxia.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Quatro mg/kg/dia é dose profilática reservada, nas tabelas da SBP, aos prematuros com peso ao nascer inferior a 1.000 g. Também não há elementos suficientes para transformar este caso em tratamento de anemia ferropriva apenas pelo valor de Hb.
B) Incorreta. Esperar 6 meses de idade corrigida deixa o prematuro sem cobertura durante justamente o período de maior depleção das reservas. A suplementação deve começar aos 30 dias de vida.
C) Correta (gabarito). Peso ao nascer de 1.820 g coloca o lactente na faixa de 1.500 a 2.500 g, para a qual a recomendação é 2 mg/kg/dia de ferro elementar durante o primeiro ano, iniciada aos 30 dias.
D) Incorreta. O fato de receber fórmula não anula automaticamente a necessidade decorrente da prematuridade. A oferta dietética de ferro deve ser considerada no cálculo, mas a indicação não depende simplesmente de suspender a fórmula.