Primigesta, 28 anos de idade, com 14 semanas de gestação, apresentou quadro de dor abdominal de forte intensidade na região do epigastro com irradiação para dorso, acompanhada de vômitos. Exames laboratoriais confirmaram pancreatite aguda. Apresentou boa aceitação da dieta no 3o dia após os sintomas, além de normalização de todos os exames laboratoriais. Realizado ultrassom de abdome superior que evidenciou múltiplos cálculos na vesícula biliar de 0,2 a 0,5cm, sem dilatação da via biliar.
A pegadinha é achar que gestação contraindica colecistectomia. Quando há indicação clínica, a cirurgia laparoscópica pode ser realizada durante a gravidez.
Pancreatite biliar leve: colecistectomia na internação índice, idealmente antes da alta.
CPRE na pancreatite biliar fica para colangite ou obstrução biliar persistente, não para todo paciente com cálculo na vesícula.
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Contexto
Trata-se de pancreatite aguda biliar leve em gestante de 14 semanas. A paciente já tolera dieta no terceiro dia, normalizou os exames e o ultrassom demonstra múltiplos cálculos vesiculares pequenos, sem dilatação da via biliar. O evento índice já passou, mas a causa permanece: a vesícula continua sendo fonte de novos cálculos e, portanto, de recorrência de pancreatite, cólica, colecistite ou coledocolitíase.
A diretriz ACG de pancreatite aguda de 2024 recomenda colecistectomia antes da alta na pancreatite biliar leve. Para a gestação, a diretriz SAGES de 2024 favorece colecistectomia laparoscópica em vez de tratamento não operatório para doença biliar durante a gravidez. Cirurgia necessária não deve ser adiada apenas pelo trimestre; 14 semanas corresponde ao início do segundo trimestre, período tradicionalmente considerado particularmente favorável para procedimento eletivo necessário.
Não há indicação de CPRE apenas porque a pancreatite foi biliar. CPRE é reservada para colangite ou forte evidência de cálculo persistente no colédoco. Aqui, a recuperação clínica e a ausência de dilatação biliar tornam desnecessária uma intervenção endoscópica de rotina.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Ultrassom endoscópico é útil quando persiste dúvida sobre coledocolitíase ou quando a etiologia da pancreatite não está definida. A causa biliar está demonstrada e não há sinal de obstrução residual.
B) Incorreta. CPRE pode ser realizada na gestação quando realmente indicada, com minimização de radiação, mas não deve ser feita de rotina em pancreatite biliar já resolvida sem colangite ou obstrução persistente.
C) Incorreta. Acompanhamento isolado deixa a fonte dos cálculos no lugar e expõe a gestante a recorrência durante a própria gestação, com risco de nova pancreatite e outras complicações biliares.
D) Correta (gabarito). A colecistectomia, preferencialmente laparoscópica, trata a causa da pancreatite e reduz recorrências. Em pancreatite biliar leve, o princípio é realizá-la na mesma internação, após estabilização clínica.