Um estudante de biologia de 24 anos de idade é trazido por sua mãe e seu irmão ao Pronto-Socorro. Nas últimas duas semanas, o estudante tem ficado progressivamente mais agitado, inquieto, dormindo menos e falando rápido, às vezes difícil de entender. Há dois dias começou a falar que descobriu a cura para a covid-19, tendo enviado várias mensagens eletrônicas para diferentes jornais, instituições públicas e embaixadas. Diz agora que aguarda a ligação de ministros da saúde de vários países para conversar sobre sua descoberta. Quando questionado pelo irmão sobre esses fatos, ficou muito irritado e tentou agredi-lo fisicamente. A família diz que o paciente sempre foi estudioso, trabalhador, carinhoso com os pais e é amigo do irmão. Aos 20 anos de idade, apresentou quadro depressivo e foi tratado com medicamento, cujo nome os familiares não se recordam. Não há antecedentes familiares mórbidos relevantes.
Pegadinha central: psicose não significa automaticamente esquizofrenia. Se aparece dentro de uma síndrome maníaca típica, o diagnóstico pode ser transtorno bipolar.
Um único episódio maníaco basta para transtorno bipolar tipo I; episódio depressivo maior prévio não é obrigatório.
Mania pode ser eufórica ou irritável. Menor necessidade de sono, pressão de fala e grandiosidade são pistas de alto rendimento.
Transtorno de personalidade é traço duradouro; mania é mudança episódica em relação ao padrão basal.
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Contexto
O paciente apresenta um episódio maníaco: duas semanas de redução da necessidade de sono, aceleração da fala e do pensamento, agitação, irritabilidade, grandiosidade delirante, comportamento desinibido e prejuízo importante, com agressividade. A psicose é congruente com o estado de humor porque a crença de ter descoberto a cura da covid-19 expressa grandiosidade extrema.
Um episódio maníaco é suficiente para estabelecer transtorno bipolar tipo I, mesmo que nunca tenha ocorrido episódio depressivo maior. Neste caso, o antecedente de depressão aos 20 anos reforça o curso bipolar, mas não é necessário para fechar o diagnóstico. A presença de sintomas psicóticos durante o episódio não transforma o quadro em esquizofrenia; para isso seria necessário demonstrar uma síndrome psicótica com curso próprio, não explicada pelo episódio de humor.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Transtorno obsessivo compulsivo exige obsessões, compulsões ou ambas. Não explica redução da necessidade de sono, pressão de fala, grandiosidade delirante e mudança expansiva do comportamento.
B) Incorreta. O termo esquizofrenia hebefrênica pertence a classificações antigas e descrevia predomínio de desorganização. Aqui o curso é episódico e dominado por sintomas típicos de mania. Psicose que surge no contexto de um episódio maníaco grave é compatível com transtorno bipolar.
C) Correta (gabarito). O conjunto define episódio maníaco e, portanto, transtorno afetivo bipolar, especificamente transtorno bipolar tipo I. O episódio depressivo anterior torna a trajetória ainda mais característica.
D) Incorreta. Transtornos de personalidade são padrões persistentes e relativamente estáveis desde o fim da adolescência ou início da vida adulta. A família descreve uma mudança aguda em relação ao funcionamento habitual, o que aponta para episódio de humor.