Médico de 57 anos de idade veio trazido pela esposa à unidade básica de saúde por alteração do comportamento há dois anos. Antes disso era uma pessoa funcional, e não tinha doenças prévias diagnosticadas. O quadro iniciou com irritabilidade e impulsividade, às vezes parecendo que tinha “perdido o freio mental”, falando o que “vinha na cabeça”. Também passou a comer muito doce, algo que não era comum. Durante toda a consulta, o paciente demonstrava-se inquieto, e às vezes fazia comentários jocosos. Na avaliação cognitiva, apresentava respostas impulsivas e estava um pouco desatento. No miniexame do estado mental, ele fez 26 pontos (perdeu três pontos nas subtrações seriadas e um no comando verbal). O exame clínico não tem outras alterações.
Pegadinha central: personalidade que muda progressivamente na meia idade sugere doença neurodegenerativa; transtorno de personalidade não começa de novo aos 55 anos.
Doce, hiperfagia e hiperoralidade são pistas clássicas de variante comportamental da demência frontotemporal.
Alzheimer típico começa por memória episódica; bvFTD começa por comportamento, cognição social e funções executivas.
Miniexame quase normal não exclui bvFTD inicial, pois o instrumento pode subestimar disfunção frontal.
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Contexto
O quadro é clássico da demência frontotemporal variante comportamental. Aos 57 anos, após décadas de funcionamento habitual, surge mudança progressiva de personalidade e conduta: desinibição, impulsividade, comentários socialmente inadequados, inquietação, perda do controle inibitório e nova preferência por doces. O desempenho global relativamente preservado no miniexame do estado mental não afasta o diagnóstico, porque testes breves podem ser pouco sensíveis às alterações precoces de funções executivas e cognição social.
As recomendações da Academia Brasileira de Neurologia para demência frontotemporal utilizam os critérios internacionais da variante comportamental. Para bvFTD possível, é necessária deterioração progressiva e pelo menos três de seis domínios: desinibição precoce, apatia ou inércia, perda de empatia, comportamento perseverativo ou compulsivo, hiperoralidade ou mudança alimentar e perfil executivo com relativa preservação de memória episódica e habilidades visuoespaciais. A preferência adquirida por doces é uma manifestação típica de hiperoralidade e mudança alimentar.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. A doença de Alzheimer típica começa mais frequentemente com comprometimento progressivo de memória episódica. Variantes comportamentais existem, mas o conjunto de desinibição precoce, hiperoralidade e disfunção executiva em adulto de meia idade favorece fortemente bvFTD.
B) Incorreta. Transtorno bipolar produz episódios de mania ou depressão com alteração do humor, energia e sono. Aqui há deterioração comportamental progressiva durante dois anos, sem descrição de episódios delimitados ou remissões.
C) Incorreta. Transtorno de personalidade é um padrão duradouro que se estabelece desde o início da vida adulta. O enunciado destaca funcionamento prévio normal e mudança adquirida aos 55 anos, incompatível com um transtorno de personalidade primário.
D) Correta (gabarito). A variante comportamental da demência frontotemporal explica a desinibição progressiva, a perda do freio social, a impulsividade, as alterações alimentares com busca por doces e o comprometimento executivo precoce com desempenho relativamente preservado em testes cognitivos globais.