Menina, 8 anos de idade, portadora de anemia falciforme, foi admitida no serviço de emergência devido quadro de febre, dificuldade para respirar e dor em hemitórax direito há 1 dia. Feito radiografia de tórax com presença de consolidação segmentar em lobo inferior direito. Ao exame, paciente em regular estado geral, FC: 125 bpm, FR: 38 ipm, com tiragem subdiafragmática, intercostal e de fúrcula, saturação de 85% em ar ambiente, 92% em máscara não-reinalante. Resultados de exame com Hb: 6,8 g/dL, Ht: 18% (Hb basal de 7,5 g/dL). A paciente em questão tem história de ter apresentado anafilaxia em transfusão prévia de concentrado de hemácias.
Anafilaxia transfusional prévia + nova necessidade de hemácias = pense em hemácias lavadas.
Lavagem remove plasma; desleucocitação remove leucócitos; irradiação inativa linfócitos. Cada modificação resolve um problema diferente.
Na síndrome torácica aguda grave ou progressiva, diretrizes atuais favorecem troca de hemácias em vez de simples transfusão quando disponível.
Paciente falciforme deve receber estratégia de compatibilidade antigênica ampliada para reduzir aloimunização.
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Contexto
A paciente com doença falciforme apresenta síndrome torácica aguda: novo infiltrado pulmonar associado a febre, dor torácica, taquipneia, esforço respiratório e hipoxemia. A saturação de 85% em ar ambiente e apenas 92% mesmo com máscara não reinalante indica comprometimento respiratório importante. A hemoglobina é 6,8 g/dL, abaixo de seu basal de 7,5 g/dL.
Transfusão faz parte do tratamento da síndrome torácica aguda quando há anemia significativa, hipoxemia ou progressão clínica. As Diretrizes da American Society of Hematology de 2020 sobre suporte transfusional na doença falciforme recomendam considerar transfusão simples em quadros moderados com hemoglobina baixa e preferir troca de hemácias em síndrome torácica aguda grave ou rapidamente progressiva. O caso tem hipoxemia importante, portanto deve haver avaliação urgente da modalidade transfusional com hematologia e hemoterapia.
A questão acrescenta um segundo problema decisivo: anafilaxia em transfusão prévia. Hemácias lavadas passam por remoção de grande parte do plasma residual, reduzindo proteínas plasmáticas capazes de desencadear reações alérgicas graves. Esse processamento é indicado em pacientes selecionados com reação alérgica grave ou anafilática prévia. A desleucocitação reduz leucócitos do doador e é particularmente útil para diminuir reações febris, aloimunização HLA e exposição a CMV, mas não substitui a lavagem para prevenir anafilaxia.
Em doença falciforme, além dessas modificações, a seleção de hemácias deve considerar compatibilidade antigênica ampliada, pelo menos para Rh e Kell, para reduzir aloimunização. Irradiação tem outra finalidade: inativar linfócitos do doador e prevenir doença do enxerto contra hospedeiro associada à transfusão.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). Há indicação transfusional pelo quadro de síndrome torácica aguda com hipoxemia importante. O antecedente de anafilaxia torna apropriado reduzir proteínas plasmáticas residuais por lavagem das hemácias; a desleucocitação também é adequada no suporte transfusional desses pacientes.
B) Incorreta. Irradiação é indicada para prevenir doença do enxerto contra hospedeiro transfusional em grupos de risco específicos. Ela não remove proteínas plasmáticas e não previne recorrência de reação anafilática.
C) Incorreta. Pré-medicação com anti-histamínicos ou corticosteroides não substitui a modificação do hemocomponente em paciente com antecedente de anafilaxia grave. O mecanismo pode envolver anticorpos contra proteínas plasmáticas, que permanecem no produto não lavado.
D) Incorreta. A anemia basal da doença falciforme isoladamente não é indicação de transfusão, mas este não é um quadro basal: existe síndrome torácica aguda com hipoxemia grave e necessidade de suporte transfusional.