Lactente, sexo feminino, 8 meses de idade, sem comorbidades prévias, foi atendida em Pronto-Socorro Infantil há 3 dias, com quadro de febre de até 39,5oC por 2 dias, associado a baixa aceitação alimentar. A mãe não notou nenhum outro sintoma associado. Ao exame clínico estava em bom estado geral e sem nenhuma alteração significativa. Considerado quadro de febre sem sinais localizatórios, colhida uroanálise e urocultura por sondagem vesical de alívio. Resultado da uroanálise: pH 5,5, densidade 1020, leucócitos 85.000/mm3, hemácias 15.000/mm3, nitrito negativo. Introduzido amoxicilina com clavulanato e solicitado retorno em 72 horas para reavaliação e checagem de urocultura. Hoje, na reavaliação, mãe refere que a paciente está tomando a medicação adequadamente, evoluindo afebril há 24 horas e sem novas queixas, exceto pelo surgimento de lesões maculopapulares eritematosas, em tronco, notadas há 12 horas. Urocultura com resultado final negativo.
A pegadinha central é a cronologia: febre alta que some e então surge exantema no tronco é exantema súbito.
Piúria não é sinônimo de ITU. Em criança febril, o diagnóstico exige correlação com urocultura de amostra adequada.
Quando a cultura definitiva afasta a infecção bacteriana suspeitada, o antibiótico empírico deve ser interrompido.
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Contexto
A evolução é típica de exantema súbito, geralmente associado ao herpesvírus humano 6 e, menos frequentemente, ao HHV-7: lactente entre 6 e 24 meses com febre alta por alguns dias, relativamente bem entre os picos febris, seguida de defervescência e aparecimento de exantema maculopapular róseo que começa predominantemente no tronco. O dado que discrimina o diagnóstico é a sequência temporal: o exantema aparece quando a febre desaparece.
A suspeita inicial de infecção urinária surgiu pela leucocitúria, mas a cultura obtida por sondagem vesical foi definitivamente negativa. Em lactentes, piúria isolada não confirma ITU e pode ocorrer de forma estéril em doenças febris virais. Para diagnóstico de ITU febril é necessária integração de piúria com crescimento bacteriano significativo em amostra adequadamente coletada. Com urocultura negativa e evolução compatível com doença viral, não há indicação de continuar ou trocar antibiótico.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Manter amoxicilina com clavulanato perpetuaria tratamento sem evidência de infecção bacteriana. O exantema temporalmente associado à defervescência é muito mais compatível com exantema súbito do que com urticária ou reação imediata ao beta-lactâmico, e anti-histamínico não é necessário para tratar a doença viral.
B) Incorreta. Trocar para antibiótico não beta-lactâmico pressuporia que existe infecção bacteriana a ser tratada e que o exantema representa alergia medicamentosa. A urocultura negativa retira a sustentação microbiológica da ITU e não há outro foco bacteriano descrito.
C) Correta (gabarito). Deve-se suspender a antibioticoterapia. A criança está melhor, afebril há 24 horas, a urocultura é negativa e o aparecimento do exantema após a defervescência fecha o padrão clínico de exantema súbito, doença autolimitada que não requer tratamento específico.
D) Incorreta. Repetir uroanálise para decidir se o antibiótico deve continuar valoriza excessivamente um marcador inespecífico. Com cultura final negativa de amostra colhida por sondagem e evolução clínica favorável, a leucocitúria inicial não justifica manter antimicrobiano.