Paciente masculino, 20 anos, estudante do 2o ano do curso de economia, é levado ao pronto-socorro psiquiátrico após uma mudança de comportamento nos últimos sete dias. De acordo com os familiares, começou a ficar progressivamente mais agitado, querendo fazer várias coisas ao mesmo tempo; houve aumento na velocidade da fala, por vezes elaborando frases sem nexo; houve diminuição do sono; e estava alimentando-se muito mal e em pouca quantidade. Relatam também que, há uns quatro meses, o paciente ficou muito triste com o falecimento da avó, pois eram muito próximos. Chorou muito e, por semanas, não queria sair do quarto, tendo emagrecido 6 kg. O paciente sempre teve boa saúde e é responsável, bom aluno e sociável. Não tem história prévia de transtorno mental. Antecedentes familiares: mãe, 44 anos, teve depressão depois do nascimento do último filho – que durou mais de um ano, mas “foi passando aos poucos, sem tratamento”; tio materno bebia bastante e cometeu suicídio aos 40 anos de idade.
A pegadinha central é chamar de agitação inespecífica um episódio com redução da necessidade de sono e aumento de energia.
Mania por pelo menos sete dias define bipolar I, mesmo sem depressão prévia documentada.
Sempre exclua substâncias e causas clínicas, mas não descarte bipolaridade apenas porque o primeiro episódio ocorreu após um estressor.
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Contexto
O episódio atual apresenta humor expansivo ou irritável com aumento de energia, agitação dirigida a múltiplas atividades, fala acelerada, pensamento desorganizado, redução da necessidade de sono e prejuízo alimentar e funcional por sete dias. Pelo DSM-5-TR de 2022, um episódio maníaco dura pelo menos uma semana, ou qualquer duração quando exige hospitalização, e inclui pelo menos três sintomas adicionais, ou quatro quando o humor é apenas irritável.
Um único episódio maníaco estabelece o diagnóstico de transtorno bipolar tipo I, mesmo sem episódio depressivo maior prévio comprovado. A história de semanas de tristeza, isolamento e perda ponderal após o falecimento da avó pode representar episódio depressivo, mas o diagnóstico não depende disso. O luto não impede o reconhecimento de depressão quando intensidade, duração e prejuízo ultrapassam a resposta esperada.
Antes de concluir transtorno bipolar, devem ser afastados substâncias estimulantes, medicamentos, hipertireoidismo, causas neurológicas e delirium. Contudo, a organização longitudinal do caso, a ausência de exposição relatada e os antecedentes familiares de depressão e suicídio reforçam transtorno do humor. Na emergência, avaliam-se risco, necessidade de internação e início de antimaníaco e ou antipsicótico conforme gravidade.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Transtorno de personalidade borderline é um padrão persistente desde o início da vida adulta, com instabilidade interpessoal, identitária e afetiva. Não se caracteriza por episódio maníaco delimitado com redução da necessidade de sono e aceleração psicomotora.
B) Incorreta. O episódio depressivo relacionado ao luto ocorreu meses antes e não explica a síndrome atual de mania. O diagnóstico deve acompanhar o estado presente e a história longitudinal.
C) Correta (gabarito). A duração de sete dias e o conjunto de sintomas preenchem episódio maníaco, suficiente para transtorno bipolar tipo I.
D) Incorreta. Intoxicação por estimulantes pode imitar mania, mas o enunciado não traz consumo, sinais autonômicos ou relação temporal com substância. A história afetiva e familiar favorece transtorno bipolar.