Paciente de 32 anos, sexo feminino, refere: há dez dias – formigamentos em pernas, que ascenderam, chegando ao nível do umbigo; há cinco dias – dificuldade para deambular por fraqueza em membros inferiores; há um dia – piora, com quedas. Associadamente, passou a ter dificuldade de urinar. No Pronto-Socorro foi constatado bexigoma, tendo sido necessária sondagem vesical de alívio. Ao exame clínico, observa-se paraparesia crural, com sinal de Babinski, reflexos exaltados em membros inferiores e presença de nível sensitivo denso na altura do umbigo.
A pegadinha central é confundir parestesia ascendente com Guillain-Barré apesar de hiperreflexia e Babinski.
Nível sensitivo mais disfunção esfincteriana localiza a lesão na medula.
Na emergência, primeiro exclua compressão com ressonância; depois aprofunde a etiologia inflamatória.
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Contexto
A combinação de paraparesia, hiperreflexia, sinal de Babinski, nível sensitivo no umbigo e retenção urinária localiza a lesão na medula espinal torácica. O umbigo corresponde aproximadamente ao dermátomo T10, portanto o exame deve abranger a coluna torácica e regiões adjacentes, sem limitar a investigação à coluna lombossacra.
A evolução em dez dias, com sintomas sensitivos ascendentes, déficit motor bilateral e disfunção autonômica, é compatível com síndrome de mielite transversa aguda. Antes de atribuir o quadro a inflamação, é obrigatório excluir compressão medular por tumor, abscesso, hematoma, hérnia discal ou outra lesão estrutural. Por isso, a ressonância magnética da coluna com contraste é o exame emergencial, idealmente cobrindo toda a medula quando possível.
Depois de excluir compressão, a investigação inclui ressonância de encéfalo, líquor, sorologias e pesquisa de causas infecciosas, autoimunes e desmielinizantes, como esclerose múltipla, doença associada ao anticorpo contra aquaporina-4 e doença associada ao anticorpo anti-MOG. O tratamento inflamatório costuma começar com corticosteroide intravenoso em alta dose, com plasmaférese nos casos graves ou refratários.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Neuroesquistossomose pode causar mielopatia, mas faltam dados epidemiológicos ou exposição compatível. Além disso, nível umbilical exige avaliação torácica, não apenas lombo-sacra.
B) Incorreta. Degeneração combinada subaguda por deficiência de vitamina B12 costuma ser mais lenta, com comprometimento de colunas posteriores, parestesias e ataxia. Não explica bem um nível sensitivo denso, retenção urinária aguda e piora em dez dias.
C) Incorreta. A síndrome de Guillain-Barré produz fraqueza flácida e arreflexia, sem Babinski ou nível sensitivo medular. O líquor não deve preceder a exclusão de compressão neste fenótipo.
D) Correta (gabarito). O conjunto define mielopatia torácica subaguda compatível com mielite transversa, e a ressonância torácica urgente é necessária para demonstrar a lesão e excluir causa compressiva.