Jan é uma pessoa não binária transmasculina. Tem 28 anos e procura a UBS para a realização de Papanicolau (colpocitologia oncótica). Identifica-se como homossexual, iniciou atividade sexual aos 22 anos, com penetração vaginal. Faz uso de testosterona injetável e apresenta ressecamento vaginal.
A pegadinha central é usar identidade de gênero como motivo para suspender rastreamento de um colo presente.
Testosterona pode causar atrofia, dor e amostra insatisfatória.
Cuidado afirmativo: consentimento contínuo, espéculo adequado, lubrificação discreta e possibilidade de estrógeno vaginal curto.
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Contexto
A necessidade de rastreamento do câncer do colo do útero é definida pela presença do colo, idade, história sexual e antecedentes clínicos, não pela identidade de gênero ou orientação sexual. Jan tem 28 anos, preserva o colo uterino e teve atividade sexual com penetração vaginal, portanto deve participar do programa de rastreamento conforme o método disponível no território.
O uso prolongado de testosterona pode causar hipoestrogenismo local, atrofia vaginal e cervical, ressecamento, dor ao exame e maior proporção de amostras citológicas insatisfatórias. Uma estratégia de cuidado afirmativo inclui explicar cada etapa, obter consentimento contínuo, permitir interrupção do procedimento, oferecer autoinsersão do espéculo quando desejada e usar o menor espéculo que possibilite visualização adequada.
Estrógeno vaginal tópico por curto período pode ser oferecido antes da coleta para reduzir atrofia e melhorar conforto e adequação da amostra, após decisão compartilhada. Pequena quantidade de lubrificante à base de água aplicada nas faces externas do espéculo, evitando excesso e contato direto com o colo, reduz trauma sem necessariamente inviabilizar o exame. Onde o rastreamento primário por teste de HPV estiver implantado, segue-se o protocolo local, mas permanece a indicação de rastrear quem possui colo.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. A coleta está indicada e o lubrificante aquoso pode ser usado com técnica adequada, mas o estrógeno tópico não é absolutamente contraindicado. Ele pode ser considerado diante de atrofia e ressecamento.
B) Incorreta. Espéculo menor pode aumentar conforto, porém a alternativa erra ao proibir estrógeno tópico e qualquer lubrificação. Pequena quantidade de produto à base de água é aceitável.
C) Correta (gabarito). Mantém o rastreamento, reconhece o benefício potencial de estrógeno vaginal antes da coleta e permite lubrificante aquoso em pequena quantidade para reduzir dor e trauma.
D) Incorreta. Disforia ou desconforto não anulam o risco de câncer. A conduta é adaptar o cuidado, respeitar autonomia e reduzir barreiras, não excluir a pessoa do rastreamento.