Antônio, 41 anos de idade, queixa-se de dificuldade para manter e iniciar a ereção há 8 meses. Refere que tem sentido menos vontade de ter relações sexuais e que não tem conseguido atingir o orgasmo. Antônio têm estado mais triste, desanimado, cansado com o trabalho, com dificuldade para manter o sono e se divertir. Nega desejo sexual por outras pessoas e também parou de se masturbar. Mantém ereção matinal. E tabagista (50 anos-maço), consome álcool (5 doses aos finais de semana). Vânia tem 47 anos, e esposa de Antônio. Refere que nunca teve interesse sexual por Antônio e nem por outras pessoas, teve poucas parcerias ao longo da vida. Sente-se saudável e satisfeita com sua vida sexual, corpo e relacionamento. Parou de menstruar há 2 anos, apresenta fogachos. Nega comorbidades, nega uso de álcool, tabaco ou situações de violência.
A pegadinha é chamar toda dificuldade de ereção de alteração da excitação. Perda global da libido localiza primeiro a fase do desejo.
Ereção matinal preservada sugere mecanismo fisiológico mantido, embora não exclua totalmente doença orgânica.
Disfunção sexual exige sofrimento ou prejuízo clinicamente relevante.
Assexualidade é uma orientação sexual, não um transtorno.
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Contexto
A resposta sexual pode ser compreendida em fases de desejo, excitação, orgasmo e resolução. Na prática, essas fases se sobrepõem e são influenciadas por fatores biológicos, psicológicos, relacionais e socioculturais. Para identificar a alteração predominante, deve-se localizar o primeiro componente modificado e verificar se existe sofrimento clinicamente relevante.
Antônio apresenta perda global do interesse: sente menos vontade, não deseja outras pessoas e parou de se masturbar. Também relata tristeza, anedonia, fadiga e insônia, conjunto compatível com possível episódio depressivo. A manutenção de ereções matinais sugere preservação do mecanismo fisiológico e torna menos provável que a queixa seja explicada exclusivamente por doença vascular. Tabagismo intenso continua sendo fator de risco para disfunção erétil e merece investigação, mas a alteração predominante é do desejo.
Vânia relata ausência vitalícia de interesse sexual por Antônio ou por outras pessoas, sem sofrimento, insatisfação ou prejuízo relacional. A ausência de desejo só constitui transtorno quando não é melhor explicada por uma orientação sexual e provoca sofrimento clinicamente significativo. O padrão é compatível com possível orientação assexual, que não é doença nem disfunção.
Fogachos e amenorreia há dois anos caracterizam climatério e podem afetar lubrificação, conforto e resposta sexual. Entretanto, não explicam ausência de atração durante toda a vida nem justificam diagnosticar transtorno em uma pessoa satisfeita com sua sexualidade.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Antônio apresenta dificuldade de ereção, mas a queixa começa por redução generalizada da libido e ocorre junto a sintomas depressivos. O tabagismo pode contribuir para componente vascular, porém não é a melhor explicação única. A interpretação de Vânia é plausível, mas a primeira metade torna a alternativa inadequada.
B) Incorreta. Depressão pode comprometer excitação, mas o dado central de Antônio é perda do desejo. Em Vânia, poucas experiências sexuais não demonstram transtorno e não explicam uma condição vitalícia sem sofrimento.
C) Incorreta. Fadiga laboral pode reduzir desejo, mas o conjunto de tristeza, anedonia, insônia e perda global de interesse sexual aponta mais fortemente para depressão. Em Vânia, o climatério é recente e não explica ausência de atração ao longo de toda a vida.
D) Correta (gabarito). Antônio apresenta alteração predominante do desejo provavelmente associada a quadro depressivo. Vânia não apresenta disfunção, pois sua ausência vitalícia de atração não gera sofrimento e pode corresponder à orientação assexual.