Rafael, 17 anos, pardo, heterossexual, católico, vem a consulta médica referindo que esta precisando de um antidepressivo ou de "ritalina" para sua falta de atenção ou que deve ser autista. Há 3 meses refere que tem estado mais triste, com sentimento de que não vai conseguir ser aprovado nas disciplinas da faculdade. Sente-se incompetente por não estar conseguindo estudar e não se concentrar. Não apresenta queixas anteriores durante a infância ou alterações no desenvolvimento. Tinha bom rendimento escolar até o Ensino Médio. Passou em quatro vestibulares e mudou-se de uma cidade pequena do interior de Goiás para iniciar a faculdade de Economia em São Paulo. Atualmente está morando na residência estudantil, dividindo quarto com outro estudante. Sua renda provém principalmente de uma bolsa de iniciação cientifica de 700 reais. Alimenta-se no Restaurante Universitário e recebe algum auxílio financeiro complementar da família de 500 reais. É o primeiro filho a cursar Ensino Superior. Considera desistir do curso que tanto desejou, acha que não é para ele, pois se percebe muito diferente dos seus colegas de turma, já que "eles costumam viajar para o exterior nas férias e frequentar determinados lugares em que sinto que não são para mim, na minha cidade não era assim com meus amigos". Refere que em uma das aulas um professor comentou que "ele não esta conseguindo acompanhar o curso porque deve ser cotista". Rafael está muito preocupado, pois sua família tem feito todo o esforço financeiro para ele se manter em São Paulo.
A pegadinha é transformar todo sofrimento acadêmico em transtorno. Medicalização ocorre quando problemas sociais são convertidos prematuramente em doença.
Racismo pode aparecer como desqualificação de mérito, capacidade ou pertencimento.
Ausência de sintomas na infância enfraquece hipóteses de TDAH e transtorno do espectro autista, mas não substitui avaliação clínica adequada.
Determinantes sociais não anulam doença mental; eles orientam uma avaliação mais completa e menos reducionista.
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Contexto
A experiência de adoecimento não depende apenas de sintomas e diagnósticos. Racismo, desigualdade econômica, posição social e expectativas culturais moldam sofrimento, acesso a oportunidades e a forma como a pessoa interpreta suas dificuldades.
O comentário de que Rafael não acompanha o curso porque deve ser cotista associa desempenho acadêmico a uma identidade racializada e a uma política de inclusão, configurando racismo. A cor declarada, o preconceito institucional e a desqualificação de sua capacidade não podem ser reduzidos a baixa autoestima individual.
A diferença entre a renda de Rafael e o padrão de consumo de seus colegas, somada à dependência de bolsa, apoio familiar limitado e moradia estudantil, evidencia desigualdade econômica. Ser o primeiro da família no ensino superior aumenta a pressão simbólica e financeira, além da sensação de não pertencimento.
Ao interpretar tristeza e dificuldade de concentração surgidas há três meses como necessidade imediata de antidepressivo, metilfenidato ou diagnóstico de autismo, Rafael reproduz a medicalização da vida: sofrimentos relacionados a adaptação, discriminação e condições sociais são convertidos prematuramente em doença e demanda farmacológica. Isso não exclui avaliação de depressão, mas exige compreender o contexto antes de rotular.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Racismo está presente, mas não há discriminação contra pessoa com transtorno mental que caracterize psicofobia. Também não existe história de neurodivergência estabelecida cuja expressão esteja sendo patologizada.
B) Correta (gabarito). O comentário sobre cotas evidencia racismo; a distância material entre Rafael e seus colegas mostra desigualdade econômica; e a busca imediata por diagnósticos e medicamentos para sofrimento contextual exemplifica medicalização da vida.
C) Incorreta. A mudança de cidade influencia adaptação e rede de apoio, mas não substitui os elementos mais explícitos do caso. Além disso, não há psicofobia descrita.
D) Incorreta. Migração e desigualdade econômica estão presentes, mas não há neurodiversidade previamente demonstrada. Sem sintomas desde a infância ou alterações do desenvolvimento, não se pode afirmar patologização de uma neurodivergência existente.