Homem, 35 anos, procura o Serviço de Emergência com queixa de dor abdominal de forte intensidade, em faixa, no andar superior do abdome. Tem relato de múltiplas passagens no hospital com quadro semelhante. Nega fatores de melhora ou piora. Refere uso contínuo de dipirona e tramadol com controle parcial dos sintomas. Relata perda de peso não quantificada no período e diarreia há 3 meses. Tem antecedente de etilismo de 1 garrafa de "pinga" por dia desde os 15 anos, tendo parado há 6 meses. Ao exame físico encontra-se em bom estado geral; IMC: 19 kg/m2, ausculta cardíaca e pulmonar sem alterações, abdome doloroso à palpação profunda sem irritação peritoneal.
A pegadinha é procurar amilase elevada: na pancreatite crônica avançada, enzimas podem ser normais porque o pâncreas já perdeu tecido funcional.
Calcificação pancreática em etilista com dor recorrente é um dos achados mais específicos da doença.
Esteatorreia e emagrecimento indicam insuficiência exócrina e pedem reposição enzimática com as refeições.
Abstinência de álcool e tabaco reduz progressão, dor e risco de complicações.
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Contexto
Dor epigástrica recorrente em faixa, etilismo intenso por muitos anos, emagrecimento e diarreia crônica sugerem pancreatite crônica com insuficiência pancreática exócrina. A agressão repetida produz fibrose irreversível, perda acinar e ductal, cálculos intrapancreáticos e, posteriormente, redução de lipase suficiente para causar esteatorreia, perda ponderal e deficiência de vitaminas lipossolúveis.
A ACG Clinical Guideline de 2020 recomenda tomografia ou ressonância como exames iniciais de imagem. Calcificações intraductais ou parenquimatosas, atrofia pancreática e dilatação ou irregularidade do ducto principal são achados de alta especificidade. Na alternativa A, a tomografia mostra múltiplas calcificações grosseiras na topografia do pâncreas, padrão clássico de pancreatite crônica calcificante relacionada ao álcool.
O diagnóstico também exige reconhecer as complicações: pseudocisto, estenose biliar ou duodenal, trombose venosa, diabetes pancreatogênico e maior risco de câncer pancreático. A diarreia por insuficiência exócrina é tratada com enzimas pancreáticas junto às refeições, ajuste nutricional e abstinência completa de álcool e tabaco.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). A imagem apresenta calcificações pancreáticas numerosas e grosseiras, achado altamente específico que fecha o diagnóstico no contexto de dor recorrente, alcoolismo e má absorção.
B) Incorreta. A imagem mostra grande processo inflamatório e coleções heterogêneas peripancreáticas, mais compatíveis com pancreatite aguda grave ou necrosante e suas complicações. Não é o padrão esperado de fibrose calcificante crônica estável.
C) Incorreta. Não há as calcificações difusas nem a clara irregularidade ductal que discriminam pancreatite crônica avançada. O corte não explica de forma direta o conjunto de dor alcoólica recorrente e insuficiência exócrina.
D) Incorreta. O achado predominante é grande distensão gástrica com conteúdo intraluminal heterogêneo, e não calcificação do parênquima pancreático. Pode sugerir alteração de esvaziamento ou obstrução digestiva, mas não é a imagem típica solicitada.