Após a legalização do seu uso em muitos países, vem aumentando na literatura o número de estudos sobre os efeitos e desfechos em saúde do uso da Cannabis sp. Em uma coorte retrospectiva, foram analisados os desfechos relacionados ao seu uso durante a gravidez. Foram incluídas no estudo 20.669 mulheres que referiram uso de Cannabis sp. durante a gestação e 296.669 que não referiram o seu uso. Os principais resultados estão resumidos na tabela a seguir:

Pegadinha: fator de proteção em estudo observacional significa associação com aRR abaixo de 1, não que a exposição deva ser recomendada.
IC95% que cruza 1 indica ausência de associação estatisticamente demonstrada para uma razão de riscos.
A Cannabis foi associada a menos diabetes, mas também a mais hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia e descolamento placentário.
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Contexto
A tabela apresenta riscos relativos ajustados. Um aRR abaixo de 1 sugere menor frequência do desfecho entre as gestantes expostas; a associação é estatisticamente significativa quando todo o intervalo de confiança de 95% permanece abaixo de 1. Para diabetes gestacional, o aRR foi 0,89, com IC95% de 0,85 a 0,94, equivalente a redução relativa ajustada de aproximadamente 11% no estudo.
O artigo de Young-Wolff e colaboradores, publicado no JAMA Internal Medicine em 2024, foi uma coorte retrospectiva. Portanto, o resultado demonstra associação, não causalidade nem benefício clínico da Cannabis durante a gestação. Confundimento residual, autorrelato, frequência e via de consumo podem influenciar as estimativas. O mesmo estudo encontrou aumento significativo de hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia e descolamento prematuro da placenta, razão pela qual o achado sobre diabetes não autoriza recomendar o uso.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). No sentido estatístico utilizado pela questão, o uso foi associado a menor risco de diabetes gestacional, pois o aRR é inferior a 1 e o intervalo inteiro fica abaixo de 1. O termo proteção não deve ser interpretado como recomendação de exposição.
B) Incorreta. Eclâmpsia e placenta prévia apresentam intervalos que incluem 1. Não há evidência de proteção nem de aumento significativo para esses desfechos.
C) Incorreta. Placenta acreta tem aRR acima de 1, mas IC95% de 0,92 a 1,95, que cruza 1. Além disso, outros desfechos mostraram aumento estatisticamente significativo.
D) Incorreta. Houve aumento significativo de hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia, mas não de eclâmpsia. A expressão doença hipertensiva específica da gravidez, usada genericamente como conjunto, inclui desfechos que não apresentaram a mesma associação na tabela.